sábado, 2 de abril de 2011
terça-feira, 7 de setembro de 2010
SE EU PUDESSE SER CRIANÇA OUTRA VEZ
SE EU PUDESSE SER CRIANÇA OUTRA VEZ
O que será que faria?
Mudaria o que já fui
Ou simplesmente viveria?
Viveria pés descalços
E os vestidos de chita
Mamãe com seus abraços
Achando-me tão bonita?
Viveria com o riso
Entre flores e capim
Ao escutar o guizo
Da ovelha atrás de mim?
Viveria correndo
Olhando para a lagoa
A meus pais bendizendo
Por uma vida tão boa?
Viveria com a fome
Vendo a panela vazia
Escrevendo meu nome
Na poeira da pia?
Não quero mudar um traço
De tudo o que então vivi.
Passado ao presente enlaço
E agradeço por estar aqui.
O que será que faria?
Mudaria o que já fui
Ou simplesmente viveria?
Viveria pés descalços
E os vestidos de chita
Mamãe com seus abraços
Achando-me tão bonita?
Viveria com o riso
Entre flores e capim
Ao escutar o guizo
Da ovelha atrás de mim?
Viveria correndo
Olhando para a lagoa
A meus pais bendizendo
Por uma vida tão boa?
Viveria com a fome
Vendo a panela vazia
Escrevendo meu nome
Na poeira da pia?
Não quero mudar um traço
De tudo o que então vivi.
Passado ao presente enlaço
E agradeço por estar aqui.
PIADA DA MADALENA
PIADA DA MADALENA:
Minha filha, com três anos e meio, estava com a mão na orelha.
Perguntei:
- Tua orelha está coçando, Madalena?
Respondeu-me:
- Não. Eu é que tô coçando, ca minha mão, ó.
E mostrou a mão.
Minha filha, com três anos e meio, estava com a mão na orelha.
Perguntei:
- Tua orelha está coçando, Madalena?
Respondeu-me:
- Não. Eu é que tô coçando, ca minha mão, ó.
E mostrou a mão.
sábado, 3 de julho de 2010
FORA DO CASULO
Hoje, sábado, decidi ficar em casa, sem colocar os pés fora do portão, sem tirar o pijama. Coisa boa. Há quanto tempo não me dava a este luxo. Choveu a noite toda e continuou pelo dia. Mais um motivo para me enfurnar. Mas não parei. Tinha tanta coisa. Fiz almoço, cuidei das meninas, Li e-mails, respondi, encaminhei, fiz pesquisa sobre convocatórias de arte postal. Deitei e tirei uma soneca, enquanto as meninas viam um desenho. Li algumas páginas de um romance.
Ia neste ritmo quando meu filho ligou e pediu para levar as meninas a um aniversário. Era somente levar. Depois ele as traria. Disse sim. Tudo bem. Precisei tirar o pijama, mas tudo bem. A chuva havia passado, não baixara a temperatura, o dia lindo.
Costumo, logo ao levantar, chegar à porta dos fundos, abrir os braços e dizer: bom dia, dia! Faço isto com sol, chuva, calor, frio, vento. O dia sempre está lindo. É assim que meu coração sente. Acostumei-me a serená-lo. É tão bom. Pouca coisa me atucana, tira-me da casinha. Penso que o pássaro azul da felicidade anda solto. Que assim também as pessoas sentem. Claro que não sou cega, não deixo de perceber as amarguras do mundo, o lado triste, os conflitos, os crimes e tantas outras coisas.
Voltando ao pedido, embelezei as meninas e fomos. Era perto, nem precisaria entrar na festa. Por isto, estacionei no portão, atrás de um carro, retirei as meninas do veículo e fui me aproximando da entrada. Um homem veio em minha direção. Achei gentil vir receber os convidados. Sorrindo, continuei. Foi aí que aconteceu. O sujeito vinha com a chave do carro na mão e foi me agredindo, verbalmente, embora, pelas palavras e pela proximidade, tenha temido que partisse para agressão física, tal a fúria. Que tirasse o carro dali, pois estava trancando o dele, que tiraria o dele para que eu pudesse ocupar a vaga.
No início, como já disse, pensei que se tratava de uma pessoa gentil, fui dizendo, mantendo o sorriso: calma, já estou saindo, calma. E ele com a chave em riste, insistia, até, finalmente, entender que não iria atrapalhá-lo. Ainda acrescentei: calma, jamais faria uma coisa desta com o senhor.
E saí.
Fiquei decepcionada. Primeiro por que era jovem e eu de cabelos brancos; segundo por que era homem e eu mulher. Pensei que ainda existisse cavalheirismo. Depois, ponderei que não cumprimentou o dia, quando acordou; que deve ter reclamado muito por ter chovido logo no dia da festa do neto (nem sei se era parente do aniversariante); que já era próximo fim do mês e seu salário, do mês anterior, devia estar no fim; que teria brigado com a mulher, por insistir em colocar a leg tão apertada, depois de ter pintado o cabelo num tom avermelhado; ou, quem sabe, o Viagra não funcionou.
Enfim...
Ia neste ritmo quando meu filho ligou e pediu para levar as meninas a um aniversário. Era somente levar. Depois ele as traria. Disse sim. Tudo bem. Precisei tirar o pijama, mas tudo bem. A chuva havia passado, não baixara a temperatura, o dia lindo.
Costumo, logo ao levantar, chegar à porta dos fundos, abrir os braços e dizer: bom dia, dia! Faço isto com sol, chuva, calor, frio, vento. O dia sempre está lindo. É assim que meu coração sente. Acostumei-me a serená-lo. É tão bom. Pouca coisa me atucana, tira-me da casinha. Penso que o pássaro azul da felicidade anda solto. Que assim também as pessoas sentem. Claro que não sou cega, não deixo de perceber as amarguras do mundo, o lado triste, os conflitos, os crimes e tantas outras coisas.
Voltando ao pedido, embelezei as meninas e fomos. Era perto, nem precisaria entrar na festa. Por isto, estacionei no portão, atrás de um carro, retirei as meninas do veículo e fui me aproximando da entrada. Um homem veio em minha direção. Achei gentil vir receber os convidados. Sorrindo, continuei. Foi aí que aconteceu. O sujeito vinha com a chave do carro na mão e foi me agredindo, verbalmente, embora, pelas palavras e pela proximidade, tenha temido que partisse para agressão física, tal a fúria. Que tirasse o carro dali, pois estava trancando o dele, que tiraria o dele para que eu pudesse ocupar a vaga.
No início, como já disse, pensei que se tratava de uma pessoa gentil, fui dizendo, mantendo o sorriso: calma, já estou saindo, calma. E ele com a chave em riste, insistia, até, finalmente, entender que não iria atrapalhá-lo. Ainda acrescentei: calma, jamais faria uma coisa desta com o senhor.
E saí.
Fiquei decepcionada. Primeiro por que era jovem e eu de cabelos brancos; segundo por que era homem e eu mulher. Pensei que ainda existisse cavalheirismo. Depois, ponderei que não cumprimentou o dia, quando acordou; que deve ter reclamado muito por ter chovido logo no dia da festa do neto (nem sei se era parente do aniversariante); que já era próximo fim do mês e seu salário, do mês anterior, devia estar no fim; que teria brigado com a mulher, por insistir em colocar a leg tão apertada, depois de ter pintado o cabelo num tom avermelhado; ou, quem sabe, o Viagra não funcionou.
Enfim...
quinta-feira, 3 de junho de 2010
PASSADO
Naquele dia, estava especialmente feliz. Se me perguntassem, não saberia dizer o motivo. Mas era uma alegria gostosa. Andava pela rua com sorriso. Quando alguém me olhava, devia achar interessante, uma pessoa andar sorrindo, solitária pelas ruas. Mas não me importava. Meus sentimentos estavam agradáveis. Uma paz interior tomava conta de mim.
Assim como o sol brilhando, meu sol interior também brilhava. Há muito que não conseguia estar assim: em paz. Algo explodia em felicidade dentro de mim.
Caminhando distraída, não vi o passado se aproximando. Fui surpreendida com a sua voz:
— Por favor! Desculpe-me, mas a senhora me lembra uma pessoa que conheci, há anos.
Senti um choque. O passado ali, grisalho e interrogativo. Bem na minha frente. Levei tantos anos para esquecer, para apagá-lo da minha vida. E ele ali. Vivo e gritante, na imagem de um homem bonito, impecavelmente trajado. Respondi apressadamente:
— O senhor está enganado. Tenho certeza de que jamais o vi.
Falei e fui me afastando rapidamente. Nem olhei para trás para ver o rumo que tomava. Meu corpo tremia. O sol que brilhava no meu interior, foi coberto por grossas nuvens. A tristeza retirou o sorriso dos meus lábios. Caminhava como uma autônoma. Quando me dei conta, tinha errado o caminho. Entrei numa casa de chá.
— A senhora está se sentindo bem? — perguntou-me a garçonete.
Levei um tempo para responder. Parecia que não era comigo. Não via ninguém. Nada existia, só a dor batendo à porta. E eu que pensei que ela havia saído para sempre da minha vida. Bastou um simples encontro para desmoronar o que havia construído para enterrar as lembranças. A garçonete voltou a falar:
— Desculpe-me. Mas posso ser-lhe útil em alguma coisa?
Olhei para ela. Pelo menos, agora já a estava vendo e ouvindo.
— Ah! Sim. Por favor, sirva-me um chá.
Enquanto sorvia o chá quente, que parecia queimar-me, imagens foram desfilando.
— Mãe, mãe, estou apaixonada. Ele é lindo! Disse que quer casar comigo.
Mamãe olhou-me com espanto. Não sabia o que dizer e o que fazer, segurando-se para não gargalhar. Controlando-se, disse:
— Querida, senta-te aqui no meu colo. Conta direitinho isto. Como é que iniciou esse namoro?
— Mãe, ele é lindo! Foi hoje que nós começamos a namorar.
— É mesmo?! E ele já te pediu em casamento? Não estão muito rápidos?
— Não, mãe. Nós não vamos casar já. Tenho que crescer mais um pouquinho. Mas ele já é bem grande. Acho que tem oito anos.
— Tudo isto? Não é muito mais velhos do que tu? Por que não namoras alguém da tua turma?
— Ah, mãe, na minha turma não tem ninguém bonito.
— De qualquer modo, sinto que deves ir com calma. Não partir já para o casamento. Vocês ainda têm de estudar muito.
E estudamos, estudamos. Até terminar o ensino médio, ficamos no mesmo colégio.
Todos nos conheciam e sabiam do nosso namoro. Quando realizei a festa dos meus quinze anos, foi oficializado. Gostavam de Reinaldo. Era como um membro da nossa família. Como era filha única, meus pais viam nele um segundo filho. Tratavam-no com o carinho.
— Amábile, meus pais resolveram mudar para outra cidade, porque papai foi transferido.
— Querido, e nós, como é que ficamos?
— Nós? Nada vai mudar. Apenas não nos veremos todos os dias, como até aqui.
— Apenas? Dizes, apenas? E isto não te incomoda?
— Claro, amor, vou sentir saudade. Mas prometo que virei aos fins-de-semana.
Foi uma nova fase na nossa vida. Reinaldo, assim, tão distante. Eu sentia saudade. Já estava acostumada com a presença dele; fazia parte da minha vida. Amava-o tanto; sofria com sua ausência.
Reinaldo queria terminar a faculdade para depois casar. Nossos pais também pensavam assim, pois precisavam de mais tempo para construírem e organizarem o nosso futuro lar.
Quando Reinaldo morava perto, era como se já fôssemos casados, pois estávamos sempre juntos. Mas com a mudança, comecei a pensar em apressarmos o casamento. Propus:
— Querido, será que não poderíamos antecipar o casamento?
— O que aconteceu? Estás grávida?!
Soltei gargalhadas por ver a cara de espanto que fazia.
— Não. Não é o caso. É que fico aqui sozinha. Sinto a tua falta. Quero ficar perto de ti.
— Meu amor! Querida! Também sinto tua ausência. Mas meu amor aumenta ainda mais quando estou distante de ti. — disse-me tomando-me em seus braços.
Ele era minha vida. Meu único amor. Passei os anos com um único amor: Reinaldo. Não me podia imaginar sem ele. Era meu mundo, meu tudo.
Comecei a sofrer ainda mais, porque meu noivo andava ocupado com a faculdade, com os estudos e com os estágios; por vezes não vindo à minha casa. Meus pais não gostavam que eu fosse visitá-lo sozinha e nem sempre podiam me acompanhar.
Assim, fiquei fins-de-semana sem vê-lo. Sofria tanto. Quando vinha, voltava a insistir:
— Quando é que vamos nos casar?
Então, cobria-me de beijos, fazendo os mesmos carinhos que me deixavam feliz.
Reinaldo terminou os estudos. Compareci à formatura, juntamente com meus pais. Foi uma festa bonita.
Como nada mais impedisse nosso casamento, no mesmo dia da formatura foi marcada a data.
Tudo foi preparado para o grande dia. Queria que fossem momentos inesquecíveis.
Meus pais procuraram satisfazer o menor dos meus desejos. Por isto, a Igreja Matriz estava engalanada para a grande cerimônia. A sociedade local convidada, pois papai era político conhecido, além de ser um dos mais bem sucedidos empresários da cidade.
Meu vestido era uma obra de arte, confeccionado por costureiro francês. Sentia-me uma princesa dos contos de fadas, quando, em passos cadenciados, sob o som da marcha nupcial, cantada por famoso cantor lírico, entrava na igreja, nos braços do meu pai.
A igreja lotada. A televisão transmitindo.
Papai passou-me para os braços de Reinaldo, dizendo:
— Este é o meu tesouro. Por favor, faça-a feliz.
Reinaldo sorriu, sem dizer nada.
Postamo-nos na frente do altar. O padre iniciou a cerimônia. Havia silêncio geral. Eu emocionada. Lembrava do dia em que conheci Reinaldo e por ele me apaixonei com a força dos meus quatro anos. Agora, nossas vidas iriam se unir para sempre, com as bênçãos de amigos, de pais e de Deus.
— Meus amigos! Se houver algo que impeça este casamento, falem agora...
Olhei para o padre. Ele olhava fixamente para o corredor da igreja. Seus olhos demonstravam surpresa. Suspense. Eu não compreendia o que estava acontecendo. Por que o padre não continuava? Claro que ninguém iria impedir o nosso casamento. Então, por que insistia em esperar.
— Padre, ele já é casado. Eu sou a sua esposa.
A voz era um sussurro. Mal se ouvia. Chegou próximo do padre. Em seus braços, trazia uma criança.
— Este é nosso filho e estou grávida. Sinto muito. Não queria interromper o casamento. Mas não tenho outra saída.
Olhou em meus olhos:
— Perdoa-me!
Saí em desabalada carreira, vem ver ou ouvir qualquer coisa.
Somente dois meses depois, acordei. Olhei ao redor. Estava em um hospital. Não sabia quem era, onde estava, se tinha um nome ou uma família.
Mamãe passou as mãos sobre meus cabelos. Lágrimas desciam de seus olhos. Mas eu não sabia quem era e o que significavam as lágrimas e o carinho.
— Bem vinda, querida! Estava te esperando. Dormistes um sono profundo.
Fiquei olhando-a. Nada tinha para dizer ou perguntar. Tudo era um branco na minha vida. Não sabia nem se podia falar. Olhava para a senhora, sem qualquer sentimento.
Minha mãe chamou o médico. Falaram sem parar. Diziam só coisas que eu não entendia. Parece que a minha presença ali os deixava feliz.
Foram chegando outras pessoas. Tratavam-me com carinho, com palavras suaves, demonstrando amor.
Quando papai me viu, não se conteve. Soluços sacudiam seu corpo. Mamãe saiu do quarto, para não o encabular, naquele momento de fragilidade.
Mas eu continuava sem falar, sem entender nada, sem conhecer ninguém. Até fiquei emocionada de ver o homem chorando e molhando meu rosto com beijos.
Passei tempo na situação. Aos poucos, comecei a falar e a reconhecer as pessoas.
Saí do hospital. Mas, em casa, era acompanhada por uma enfermeira, que tentava me reeducar, ensinando-me as coisas mais simples, como se eu fosse um bebê. Foram anos de re-aprendizado.
Minha vida ia sendo resgatada. Lembranças foram voltando, com cuidado. Ia tomando consciência de mim, da minha vida. Mas não falavam em Reinaldo e não me lembrava de nada. Era como se nunca tivesse existido.
Um dia, quando já me sentia forte, fiz com que mamãe contasse o que acontecera. Relutou. Mas, após ouvir a opinião do médico, foi-me reavivando as lembranças. Aconteceu como um clic. O sofrimento foi intenso. Os médicos temeram por uma nova crise. Mas não ocorreu. A dor dilacerava meu coração, mas reagia.
De qualquer modo, a jovem sonhadora que era havia morrido na igreja. O que restava era um farrapo de gente.
Fui vivendo assim. Ou melhor, nem vivia. Apenas vegetava. Meus pais faziam de tudo para a minha recuperação. Célebres especialistas foram consultados. Mas quem pode recuperar um coração dilacerado?
Tornara-me pessoa inútil, uma morta-viva.
Somente o tempo foi aplacando a dor. Fui recuperando os espaços perdidos. Jamais vi Reinaldo ou tive notícia. Todos tinham o cuidado de não tocar no seu nome, nem dizer palavra que pudesse lembrá-lo.
Deixando a dor sedimentada no fundo, como se não existisse, passei a viver uma vida normal. Normal — é preciso que diga — para as condições de vida que passei a levar. Nada tinha mais brilho. Não me empolgava. Não tive outro namorado. Não trabalhei. Não fiz nada.
Somente anos depois, nesta existência sem graça, fui saindo da indiferença, buscando relacionar-me, fazer amizades, ser útil.
Busquei na espiritualidade a força necessária. Só então, compreendi o sentido real da existência. Assim, fui elaborando novos conceitos, amando o que tinha, mesmo que do meu jeito.
Hoje, sentia-me especialmente feliz, de sentimentos renovados, pois tinha encontrado um novo caminho de amor e bondade numa pessoa especial que surgiu na minha vida.
Por isto, caminhava pela rua, feliz, num sentimento que me era inexplicável, quando deparei no Reinaldo.
Terminei o meu chá. A realidade me aguardava. O passado estava morto. Morto e bem enterrado. Reinaldo, só agora compreendo, foi utilizado para mudar o rumo da vida para uma existência cheia de fé e amor, de gratidão por existir.
Se o choque de tê-lo encontrado desorganizou-me por instantes, servia para meu despertar, pois constatei que o sentimento de ódio que estava nutrindo se apagara. Com certeza, fora utilizado como um instrumento para a minha libertação.
Assim como o sol brilhando, meu sol interior também brilhava. Há muito que não conseguia estar assim: em paz. Algo explodia em felicidade dentro de mim.
Caminhando distraída, não vi o passado se aproximando. Fui surpreendida com a sua voz:
— Por favor! Desculpe-me, mas a senhora me lembra uma pessoa que conheci, há anos.
Senti um choque. O passado ali, grisalho e interrogativo. Bem na minha frente. Levei tantos anos para esquecer, para apagá-lo da minha vida. E ele ali. Vivo e gritante, na imagem de um homem bonito, impecavelmente trajado. Respondi apressadamente:
— O senhor está enganado. Tenho certeza de que jamais o vi.
Falei e fui me afastando rapidamente. Nem olhei para trás para ver o rumo que tomava. Meu corpo tremia. O sol que brilhava no meu interior, foi coberto por grossas nuvens. A tristeza retirou o sorriso dos meus lábios. Caminhava como uma autônoma. Quando me dei conta, tinha errado o caminho. Entrei numa casa de chá.
— A senhora está se sentindo bem? — perguntou-me a garçonete.
Levei um tempo para responder. Parecia que não era comigo. Não via ninguém. Nada existia, só a dor batendo à porta. E eu que pensei que ela havia saído para sempre da minha vida. Bastou um simples encontro para desmoronar o que havia construído para enterrar as lembranças. A garçonete voltou a falar:
— Desculpe-me. Mas posso ser-lhe útil em alguma coisa?
Olhei para ela. Pelo menos, agora já a estava vendo e ouvindo.
— Ah! Sim. Por favor, sirva-me um chá.
Enquanto sorvia o chá quente, que parecia queimar-me, imagens foram desfilando.
— Mãe, mãe, estou apaixonada. Ele é lindo! Disse que quer casar comigo.
Mamãe olhou-me com espanto. Não sabia o que dizer e o que fazer, segurando-se para não gargalhar. Controlando-se, disse:
— Querida, senta-te aqui no meu colo. Conta direitinho isto. Como é que iniciou esse namoro?
— Mãe, ele é lindo! Foi hoje que nós começamos a namorar.
— É mesmo?! E ele já te pediu em casamento? Não estão muito rápidos?
— Não, mãe. Nós não vamos casar já. Tenho que crescer mais um pouquinho. Mas ele já é bem grande. Acho que tem oito anos.
— Tudo isto? Não é muito mais velhos do que tu? Por que não namoras alguém da tua turma?
— Ah, mãe, na minha turma não tem ninguém bonito.
— De qualquer modo, sinto que deves ir com calma. Não partir já para o casamento. Vocês ainda têm de estudar muito.
E estudamos, estudamos. Até terminar o ensino médio, ficamos no mesmo colégio.
Todos nos conheciam e sabiam do nosso namoro. Quando realizei a festa dos meus quinze anos, foi oficializado. Gostavam de Reinaldo. Era como um membro da nossa família. Como era filha única, meus pais viam nele um segundo filho. Tratavam-no com o carinho.
— Amábile, meus pais resolveram mudar para outra cidade, porque papai foi transferido.
— Querido, e nós, como é que ficamos?
— Nós? Nada vai mudar. Apenas não nos veremos todos os dias, como até aqui.
— Apenas? Dizes, apenas? E isto não te incomoda?
— Claro, amor, vou sentir saudade. Mas prometo que virei aos fins-de-semana.
Foi uma nova fase na nossa vida. Reinaldo, assim, tão distante. Eu sentia saudade. Já estava acostumada com a presença dele; fazia parte da minha vida. Amava-o tanto; sofria com sua ausência.
Reinaldo queria terminar a faculdade para depois casar. Nossos pais também pensavam assim, pois precisavam de mais tempo para construírem e organizarem o nosso futuro lar.
Quando Reinaldo morava perto, era como se já fôssemos casados, pois estávamos sempre juntos. Mas com a mudança, comecei a pensar em apressarmos o casamento. Propus:
— Querido, será que não poderíamos antecipar o casamento?
— O que aconteceu? Estás grávida?!
Soltei gargalhadas por ver a cara de espanto que fazia.
— Não. Não é o caso. É que fico aqui sozinha. Sinto a tua falta. Quero ficar perto de ti.
— Meu amor! Querida! Também sinto tua ausência. Mas meu amor aumenta ainda mais quando estou distante de ti. — disse-me tomando-me em seus braços.
Ele era minha vida. Meu único amor. Passei os anos com um único amor: Reinaldo. Não me podia imaginar sem ele. Era meu mundo, meu tudo.
Comecei a sofrer ainda mais, porque meu noivo andava ocupado com a faculdade, com os estudos e com os estágios; por vezes não vindo à minha casa. Meus pais não gostavam que eu fosse visitá-lo sozinha e nem sempre podiam me acompanhar.
Assim, fiquei fins-de-semana sem vê-lo. Sofria tanto. Quando vinha, voltava a insistir:
— Quando é que vamos nos casar?
Então, cobria-me de beijos, fazendo os mesmos carinhos que me deixavam feliz.
Reinaldo terminou os estudos. Compareci à formatura, juntamente com meus pais. Foi uma festa bonita.
Como nada mais impedisse nosso casamento, no mesmo dia da formatura foi marcada a data.
Tudo foi preparado para o grande dia. Queria que fossem momentos inesquecíveis.
Meus pais procuraram satisfazer o menor dos meus desejos. Por isto, a Igreja Matriz estava engalanada para a grande cerimônia. A sociedade local convidada, pois papai era político conhecido, além de ser um dos mais bem sucedidos empresários da cidade.
Meu vestido era uma obra de arte, confeccionado por costureiro francês. Sentia-me uma princesa dos contos de fadas, quando, em passos cadenciados, sob o som da marcha nupcial, cantada por famoso cantor lírico, entrava na igreja, nos braços do meu pai.
A igreja lotada. A televisão transmitindo.
Papai passou-me para os braços de Reinaldo, dizendo:
— Este é o meu tesouro. Por favor, faça-a feliz.
Reinaldo sorriu, sem dizer nada.
Postamo-nos na frente do altar. O padre iniciou a cerimônia. Havia silêncio geral. Eu emocionada. Lembrava do dia em que conheci Reinaldo e por ele me apaixonei com a força dos meus quatro anos. Agora, nossas vidas iriam se unir para sempre, com as bênçãos de amigos, de pais e de Deus.
— Meus amigos! Se houver algo que impeça este casamento, falem agora...
Olhei para o padre. Ele olhava fixamente para o corredor da igreja. Seus olhos demonstravam surpresa. Suspense. Eu não compreendia o que estava acontecendo. Por que o padre não continuava? Claro que ninguém iria impedir o nosso casamento. Então, por que insistia em esperar.
— Padre, ele já é casado. Eu sou a sua esposa.
A voz era um sussurro. Mal se ouvia. Chegou próximo do padre. Em seus braços, trazia uma criança.
— Este é nosso filho e estou grávida. Sinto muito. Não queria interromper o casamento. Mas não tenho outra saída.
Olhou em meus olhos:
— Perdoa-me!
Saí em desabalada carreira, vem ver ou ouvir qualquer coisa.
Somente dois meses depois, acordei. Olhei ao redor. Estava em um hospital. Não sabia quem era, onde estava, se tinha um nome ou uma família.
Mamãe passou as mãos sobre meus cabelos. Lágrimas desciam de seus olhos. Mas eu não sabia quem era e o que significavam as lágrimas e o carinho.
— Bem vinda, querida! Estava te esperando. Dormistes um sono profundo.
Fiquei olhando-a. Nada tinha para dizer ou perguntar. Tudo era um branco na minha vida. Não sabia nem se podia falar. Olhava para a senhora, sem qualquer sentimento.
Minha mãe chamou o médico. Falaram sem parar. Diziam só coisas que eu não entendia. Parece que a minha presença ali os deixava feliz.
Foram chegando outras pessoas. Tratavam-me com carinho, com palavras suaves, demonstrando amor.
Quando papai me viu, não se conteve. Soluços sacudiam seu corpo. Mamãe saiu do quarto, para não o encabular, naquele momento de fragilidade.
Mas eu continuava sem falar, sem entender nada, sem conhecer ninguém. Até fiquei emocionada de ver o homem chorando e molhando meu rosto com beijos.
Passei tempo na situação. Aos poucos, comecei a falar e a reconhecer as pessoas.
Saí do hospital. Mas, em casa, era acompanhada por uma enfermeira, que tentava me reeducar, ensinando-me as coisas mais simples, como se eu fosse um bebê. Foram anos de re-aprendizado.
Minha vida ia sendo resgatada. Lembranças foram voltando, com cuidado. Ia tomando consciência de mim, da minha vida. Mas não falavam em Reinaldo e não me lembrava de nada. Era como se nunca tivesse existido.
Um dia, quando já me sentia forte, fiz com que mamãe contasse o que acontecera. Relutou. Mas, após ouvir a opinião do médico, foi-me reavivando as lembranças. Aconteceu como um clic. O sofrimento foi intenso. Os médicos temeram por uma nova crise. Mas não ocorreu. A dor dilacerava meu coração, mas reagia.
De qualquer modo, a jovem sonhadora que era havia morrido na igreja. O que restava era um farrapo de gente.
Fui vivendo assim. Ou melhor, nem vivia. Apenas vegetava. Meus pais faziam de tudo para a minha recuperação. Célebres especialistas foram consultados. Mas quem pode recuperar um coração dilacerado?
Tornara-me pessoa inútil, uma morta-viva.
Somente o tempo foi aplacando a dor. Fui recuperando os espaços perdidos. Jamais vi Reinaldo ou tive notícia. Todos tinham o cuidado de não tocar no seu nome, nem dizer palavra que pudesse lembrá-lo.
Deixando a dor sedimentada no fundo, como se não existisse, passei a viver uma vida normal. Normal — é preciso que diga — para as condições de vida que passei a levar. Nada tinha mais brilho. Não me empolgava. Não tive outro namorado. Não trabalhei. Não fiz nada.
Somente anos depois, nesta existência sem graça, fui saindo da indiferença, buscando relacionar-me, fazer amizades, ser útil.
Busquei na espiritualidade a força necessária. Só então, compreendi o sentido real da existência. Assim, fui elaborando novos conceitos, amando o que tinha, mesmo que do meu jeito.
Hoje, sentia-me especialmente feliz, de sentimentos renovados, pois tinha encontrado um novo caminho de amor e bondade numa pessoa especial que surgiu na minha vida.
Por isto, caminhava pela rua, feliz, num sentimento que me era inexplicável, quando deparei no Reinaldo.
Terminei o meu chá. A realidade me aguardava. O passado estava morto. Morto e bem enterrado. Reinaldo, só agora compreendo, foi utilizado para mudar o rumo da vida para uma existência cheia de fé e amor, de gratidão por existir.
Se o choque de tê-lo encontrado desorganizou-me por instantes, servia para meu despertar, pois constatei que o sentimento de ódio que estava nutrindo se apagara. Com certeza, fora utilizado como um instrumento para a minha libertação.
AMOQUE
Sentada no gabinete de trabalho, olhava as pilhas de processos à frente, sem ver nada, pensamento distante, perdida num passado longínquo. Girou a cadeira. Ficou de frente para a janela, de onde podia descortinar a floresta que se perdia na linha do horizonte. O prédio do Foro fora recentemente construído, no alto da colina, onde se localizava a cidade, ficando a parte de trás voltada para floresta, de onde vinha ar puro e saudável que a beneficiava, quando o cansaço da labuta diária era intenso.
— Amoque vai chover... —murmurou.
Começou a rir. Uma doutora não pode falar assim. Se alguém me ouve...
O pensamento voltou-se para a terra natal. Percorreu a lagoa, com a água cristalina, onde a poluição ainda não havia chegado. Foi passando pelas trilhas, pois não havia qualquer lugar que se pudesse chamar de rua, já que por lá os únicos carros que passavam eram os puxados por junta de bois.
“Amoque vai chover”. Olhou para o céu e viu nuvens escuras que se erguiam no horizonte. Lembrou da expressão usada pelo pai. Dizia as palavras de forma cantada, suavemente, como um embalo, uma canção de ninar. Era como se estivesse novamente ouvindo-o.
Somente anos depois é que procurara no dicionário a palavra “amoque” e descobriu que não existia. No entanto, nunca deixara de entendê-lo.
— Amoque este menino está com fome, dizia, olhando para o pequeno filho, sentado no chão.
Hoje, no silencioso gabinete, lembrava que aprendera tantas palavras na vida, mas aquela, e da forma que era pronunciada, deixara marca em seu coração.
Onde será que o pai encontrara? Será que a inventara ou ouvira de alguém?
Palavras. Quantas proferira no dia anterior e quantas ouvira? Palavras suaves, acalentadores, frias, confortantes; grosseiras, cortantes como a mais afiada lâmina. Palavras usadas num jogo onde uma vida dependia, onde a liberdade de um homem seria decidida.
O julgamento começara cedo, mas o Tribunal do Júri já estava lotado. Fora um dia desgastante. Embora a prova cristalina, a defesa usara de artimanhas capazes de confundir os jurados. Por isto, seu esforço teve de ser maior, para obter a condenação.
O réu era um homem rude, agricultor de um município próximo. Alto, corpulento, acostumado às lides do campo desde jovem. Tinha quatro filhas e um filho. Costumava bater na mulher, provocando-lhe ferimentos que, muitas vezes, a faziam parar no hospital. Mas, devido às ameaças, jamais revelava o que realmente acontecera. Submissa, lavava-lhe os pés, quando chegava do trabalho, servia-lhe as refeições e colocava-se à disposição para satisfazer-lhe os caprichos amorosos.
Estranhava o comportamento com as meninas. Não querendo ver, pensava que era pai carinhoso, que amava demais as filhas. Assim, fechava os olhos. À medida que as filhas iam crescendo, ia ficando livre dos abusos sexuais do marido. Sabia por que, mas se recusava a enfrentar a realidade. Abusava das meninas desde bebês.
Um dia, quando uma delas estava com cinco anos, veio se queixar. Ficou furiosa, dizendo que aquilo não era coisa de inventar sobre o pai. A criança fugiu, chorando.
Ficou angustiada. Precisava dar um basta na situação. Mas tinha medo. Não suportava mais as surras que levava. Porém, a filhinha estava sofrendo. E foi a única que tivera coragem de se queixar. E o que fizera? Que tipo de mãe era? Resolveu. Mesmo com as ameaças, iria enfrentá-lo, para salvar as crianças.
Como resultado, foi parar, mais uma vez, no hospital. Assim, não se atrevia mais a abrir a boca.
Um dia, chegou embriagado. Sob ameaça de uma faca, reuniu as filhas no quarto, junto com a mulher. Foi usando uma por uma, na frente das demais. Fechara a porta do quarto e a janela. Os gritos e as choradeiras ficavam abafados. Cada vez que a mulher tentava intervir, ameaçava matá-la e às meninas. Por último, pegou a filha de cinco meses, que brincava no berço, com as perninhas roliças agitando no ar. A criança morreu na hora.
Só assim, o caso foi parar na polícia, resultando no júri.
O pensamento voltou-se para a infância, para o tranquilo lar, no alto da colina, de onde podia contemplar a lagoa.
Voltou a lembrar-se do pai. Era homem tímido, falava mansamente, ficava envergonhado quando era apresentado para alguém, baixando os olhos, como a pedir desculpa.
Mãos grosseiras, cheias de calos, obtidos no manejo do cabo da enxada. Andava descalço, pisando firme no solo que dava o sustento aos filhos. Dava-lhes segurança, amor e carinho. Amparava-os. Olhos verdes, corpo grande, parecia uma criança, quando sentava no chão, no terreiro da casa, para brincar com os filhos, com brinquedos que preparava com os sabugos de milho.
— Amoque estás distraída hoje, dizia, tirando-a dos devaneios de criança sonhadora.
Voltou-se para o interior do gabinete. Parecia que a voz do pai ainda a acalentava, fazia-a voltar à realidade, ainda hoje, decorridos tantos anos.
— Amoque esqueci um pouco destas pilhas de processos que me esperam — murmurou.
O pouco que os pensamentos vagaram pela terra natal, pelo lar, fora o suficiente para restaurar-lhe as energias, necessárias para dar-lhe o alento que precisava.
Abriu o primeiro processo.
— Amoque vai chover... —murmurou.
Começou a rir. Uma doutora não pode falar assim. Se alguém me ouve...
O pensamento voltou-se para a terra natal. Percorreu a lagoa, com a água cristalina, onde a poluição ainda não havia chegado. Foi passando pelas trilhas, pois não havia qualquer lugar que se pudesse chamar de rua, já que por lá os únicos carros que passavam eram os puxados por junta de bois.
“Amoque vai chover”. Olhou para o céu e viu nuvens escuras que se erguiam no horizonte. Lembrou da expressão usada pelo pai. Dizia as palavras de forma cantada, suavemente, como um embalo, uma canção de ninar. Era como se estivesse novamente ouvindo-o.
Somente anos depois é que procurara no dicionário a palavra “amoque” e descobriu que não existia. No entanto, nunca deixara de entendê-lo.
— Amoque este menino está com fome, dizia, olhando para o pequeno filho, sentado no chão.
Hoje, no silencioso gabinete, lembrava que aprendera tantas palavras na vida, mas aquela, e da forma que era pronunciada, deixara marca em seu coração.
Onde será que o pai encontrara? Será que a inventara ou ouvira de alguém?
Palavras. Quantas proferira no dia anterior e quantas ouvira? Palavras suaves, acalentadores, frias, confortantes; grosseiras, cortantes como a mais afiada lâmina. Palavras usadas num jogo onde uma vida dependia, onde a liberdade de um homem seria decidida.
O julgamento começara cedo, mas o Tribunal do Júri já estava lotado. Fora um dia desgastante. Embora a prova cristalina, a defesa usara de artimanhas capazes de confundir os jurados. Por isto, seu esforço teve de ser maior, para obter a condenação.
O réu era um homem rude, agricultor de um município próximo. Alto, corpulento, acostumado às lides do campo desde jovem. Tinha quatro filhas e um filho. Costumava bater na mulher, provocando-lhe ferimentos que, muitas vezes, a faziam parar no hospital. Mas, devido às ameaças, jamais revelava o que realmente acontecera. Submissa, lavava-lhe os pés, quando chegava do trabalho, servia-lhe as refeições e colocava-se à disposição para satisfazer-lhe os caprichos amorosos.
Estranhava o comportamento com as meninas. Não querendo ver, pensava que era pai carinhoso, que amava demais as filhas. Assim, fechava os olhos. À medida que as filhas iam crescendo, ia ficando livre dos abusos sexuais do marido. Sabia por que, mas se recusava a enfrentar a realidade. Abusava das meninas desde bebês.
Um dia, quando uma delas estava com cinco anos, veio se queixar. Ficou furiosa, dizendo que aquilo não era coisa de inventar sobre o pai. A criança fugiu, chorando.
Ficou angustiada. Precisava dar um basta na situação. Mas tinha medo. Não suportava mais as surras que levava. Porém, a filhinha estava sofrendo. E foi a única que tivera coragem de se queixar. E o que fizera? Que tipo de mãe era? Resolveu. Mesmo com as ameaças, iria enfrentá-lo, para salvar as crianças.
Como resultado, foi parar, mais uma vez, no hospital. Assim, não se atrevia mais a abrir a boca.
Um dia, chegou embriagado. Sob ameaça de uma faca, reuniu as filhas no quarto, junto com a mulher. Foi usando uma por uma, na frente das demais. Fechara a porta do quarto e a janela. Os gritos e as choradeiras ficavam abafados. Cada vez que a mulher tentava intervir, ameaçava matá-la e às meninas. Por último, pegou a filha de cinco meses, que brincava no berço, com as perninhas roliças agitando no ar. A criança morreu na hora.
Só assim, o caso foi parar na polícia, resultando no júri.
O pensamento voltou-se para a infância, para o tranquilo lar, no alto da colina, de onde podia contemplar a lagoa.
Voltou a lembrar-se do pai. Era homem tímido, falava mansamente, ficava envergonhado quando era apresentado para alguém, baixando os olhos, como a pedir desculpa.
Mãos grosseiras, cheias de calos, obtidos no manejo do cabo da enxada. Andava descalço, pisando firme no solo que dava o sustento aos filhos. Dava-lhes segurança, amor e carinho. Amparava-os. Olhos verdes, corpo grande, parecia uma criança, quando sentava no chão, no terreiro da casa, para brincar com os filhos, com brinquedos que preparava com os sabugos de milho.
— Amoque estás distraída hoje, dizia, tirando-a dos devaneios de criança sonhadora.
Voltou-se para o interior do gabinete. Parecia que a voz do pai ainda a acalentava, fazia-a voltar à realidade, ainda hoje, decorridos tantos anos.
— Amoque esqueci um pouco destas pilhas de processos que me esperam — murmurou.
O pouco que os pensamentos vagaram pela terra natal, pelo lar, fora o suficiente para restaurar-lhe as energias, necessárias para dar-lhe o alento que precisava.
Abriu o primeiro processo.
terça-feira, 25 de maio de 2010
A VIDA É BELA
Do espaço celeste descem fagulhas de luz que se materializam na terra. Tomam formas diferentes: animais, plantas, flores, rios, pedras, objetos, gente...
Acontece que alguns não têm olhos de ver, coração de sentir, sentimento de amar. Uns reclamam porque este ano não conseguiram trocar o carro pelo zero da propaganda, outros porque faltou o alimento para o filho.
Temos ideias diferentes sobre a maneira de interpretar o que é bom, o que é ruim. Reclamamos se faz sol, se chove, se frio, se calor. É assim.
Lucila nasceu de mãe presidiária. Desta maneira, condenada a viver atrás das grades, mesmo sem ter cometido crime algum. Tinha, portanto, do que reclamar. Nos primeiros oito meses, viveu prisioneira. Para completar, nasceu com paralisia cerebral. Mas não reclamou. Sorria. Olhos castanhos escuros cheios de luz.
Ganhou outra mãe, irmãs que eram de verdade, uma tia, irmão de coração, casa bonita, tratamento carinhoso e medidas para curar as dores do coração e amenizar os defeitos físicos.
O dia em que deixou o presídio, os braços da mãe, e passou para outros, chorou. E muito. Tinha apenas oito meses e sabia da vida, do que era e do que seria. Estava registrado em sua alma, que era velha, sofrida.
Foi vencendo os tropeços. Caiu bastante. A perna esquerda, teimosa, não queria sustentá-la em pé. Rolou pelo chão por bom tempo. Nem engatinhar conseguia. Porém mantinha o sorriso, a esperança e a coragem. Uma guerreira.
Finalmente, pôs-se de pé, caminhou. Só risos. Agora, ainda que com vacilos, corre brinca, fala, canta.
Lembram daquelas fagulhas de luz que se materializaram? Pois é. Lucila é uma delas. É luz por dentro e por fora. Hoje, aproximou-se da mãe, a do coração, e, do alto da sabedoria dos seus três anos, bradou:
— A vida é bela!
A mãe pensou não ter entendido.
— Repete. O que disseste, filhinha?
— A vida é bela!
A mãe olhou-a, admirada, com sorriso e lágrimas. Num abraço apertado, entre beijos, concordou e concluiu:
— Tens razão. Realmente, a vida é bela, muito bela.
Acontece que alguns não têm olhos de ver, coração de sentir, sentimento de amar. Uns reclamam porque este ano não conseguiram trocar o carro pelo zero da propaganda, outros porque faltou o alimento para o filho.
Temos ideias diferentes sobre a maneira de interpretar o que é bom, o que é ruim. Reclamamos se faz sol, se chove, se frio, se calor. É assim.
Lucila nasceu de mãe presidiária. Desta maneira, condenada a viver atrás das grades, mesmo sem ter cometido crime algum. Tinha, portanto, do que reclamar. Nos primeiros oito meses, viveu prisioneira. Para completar, nasceu com paralisia cerebral. Mas não reclamou. Sorria. Olhos castanhos escuros cheios de luz.
Ganhou outra mãe, irmãs que eram de verdade, uma tia, irmão de coração, casa bonita, tratamento carinhoso e medidas para curar as dores do coração e amenizar os defeitos físicos.
O dia em que deixou o presídio, os braços da mãe, e passou para outros, chorou. E muito. Tinha apenas oito meses e sabia da vida, do que era e do que seria. Estava registrado em sua alma, que era velha, sofrida.
Foi vencendo os tropeços. Caiu bastante. A perna esquerda, teimosa, não queria sustentá-la em pé. Rolou pelo chão por bom tempo. Nem engatinhar conseguia. Porém mantinha o sorriso, a esperança e a coragem. Uma guerreira.
Finalmente, pôs-se de pé, caminhou. Só risos. Agora, ainda que com vacilos, corre brinca, fala, canta.
Lembram daquelas fagulhas de luz que se materializaram? Pois é. Lucila é uma delas. É luz por dentro e por fora. Hoje, aproximou-se da mãe, a do coração, e, do alto da sabedoria dos seus três anos, bradou:
— A vida é bela!
A mãe pensou não ter entendido.
— Repete. O que disseste, filhinha?
— A vida é bela!
A mãe olhou-a, admirada, com sorriso e lágrimas. Num abraço apertado, entre beijos, concordou e concluiu:
— Tens razão. Realmente, a vida é bela, muito bela.
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