O jovem casal angustiado. Carlinda, o bebê de apenas quinze dias, estava doente; chorava à noite, não aceitava mamar e tinha febre. Precisavam procurar um médico. Mas fazia pouco que moravam na cidade e não conheciam nada. Resolveram se socorrer da vizinha, que tinha sido gentil, quando chegaram com a mudança.
Indicado o médico, saíram às presas. Por sorte, encontraram-no e não estava ocupado.
- Entrem, por favor, disse o jovem médico.
O casal ficou decepcionado. Parecia um menino. Como confiar seu tesouro a ele? Mas não tinham escolha.
- Doutor, o nosso bebê... disseram os dois ao mesmo tempo.
Riram. O Dr. Artur procurou acalmá-los. Tratou de examinar a criança e dirigiu-se aos pais com um sorriso:
- Não se preocupem. A menina está bem. A febre é decorrência de infecção na garganta, que também a impede de mamar. Vou receitar um remédio. Voltem aqui após quinze dias para revisão.
Respiraram aliviados.
A partir de então, era ao Dr. Artur que se socorriam cada vez que a menina tinha indisposição.
A criança foi crescendo saudável. Era um lindo bebê, com cabelos loiros encaracolados, de olhos de um azul profundo, misteriosos.
O Dr. Artur tornou-se amigo do casal, frequentando a casa. A paciente gostava especialmente do doutor, que lhe trazia mimos e guloseimas. Quando chegava, a menina ia logo se sentando sobre seus joelhos, aguardando os presentes.
Com o passar dos anos, Artur tornou-se famoso e ocupado, deixando de fazer as visitas.
Um dia, Carlinda não resistiu à saudade e marcou consulta. Quando viu o nome na agenda. Artur ficou emocionado. Os afazeres o afastaram, mas nunca deixou de pensar nela. Avisou à secretária que a fizesse entrar e esperou-a na porta, de braços abertos. Ficou paralisado, quando a viu. Já não era a criança que corria para receber presentes e o abraçava. Tornara-se uma adolescente, cabelos compridos e encaracolados, cílios espessos e arqueados, envolvendo-lhe os olhos azuis.
— Quase não te reconheci. Entra, por favor - disse Artur, recuperando-se da surpresa.
— Senti tua falta. Por que não vais mais nos visitar? Meus pais não te procuram porque não querem atrapalhar, sabendo que estás ocupado.
Enquanto Carlinda falava, Artur admirava-a. Como está linda! - pensava. Lembrou-se do dia que a conhecera, da angústia dos pais, das vezes em que visitara o casal, com quem fizera amizade, e dos carinhos da menina, dos gritinhos cada vez que chegava com presentes. Afeiçoara-se a ela.
— Então, hoje... Artur, estás me ouvindo?
— Sim, estou. Quero saber da tua vida. Que tens feito, como vais nos estudos, como vão Carlos e Deolinda?
Conversaram. Quando perceberam, já escurecera. O médico levou-a para casa. Próximo, havia uma sorveteria. Pararam. Ofereceu-lhe um sorvete. Depois, ficou cuidando até que a viu entrar em casa.
À medida que os dias passavam, ficava mais preocupado. Carlinda não lhe saía do pensamento. Despertara-lhe um sentimento que não conseguia esclarecer.
— O que é isto, Artur? Olha-te no espelho. És um velho para ela.
Mas era em vão. O que fazer? Não lhe visitava há tempo. Agora não achava correto procurá-la.
— Alô, Artur? É Carlinda. Preciso de um atestado. Podes me dar?
Suspira, aliviado. Vinha a seu encontro. Marcou o último horário.
Quando saiu o paciente, começou a preparar-se para recebê-la. Levou o rosto, penteou os cabelos, colocou perfume, arrumou a mesa. Olhou o ambiente para ver se estava em ordem. Riu.
— Artur, o que é isto? Pareces um adolescente enamorado, preparando-se para o primeiro encontro.
Carlinda chegou na hora marcada. Linda! Admirava-a, percorrendo o olhar, discretamente, pelo corpo dela.
A partir daquele dia, Artur reservava um tempo para sair com Carlinda. Levava-a até o colégio, ia a parques, sorveterias, restaurantes... Satisfazia-lhe os desejos.
Um dia, quando passeavam em um shopping, exclamou, olhando a vitrine:
— Olha, Artur, que vestido lindo!
No dia seguinte, recebia o vestido em casa, com flores e um cartão:
“Para enfeitar minha paciente preferida”.
De retorno, um telefonema agradecendo. Marcaram encontro no consultório.
Quando chegou, encontrou Artur na porta. Atirou-se nos braços, beijando-o nas faces. Afastou-a e, seguando-lhe a cabeça, levou os lábios ao encontro dos dela. Como se já estivesse esperando o beijo, deixou-se envolver, aconchegando-se. O pediatra afastou-a.
— Perdoa-me. Foi um impulso que não consegui resistir.
— Não te desculpe. Fiquei contente - disse, enrubescendo.
O envolvimento cada vez mais acentuado. Procurara fugir, saindo com outras mulheres, mas nada resolvia. Mesmo com elas, o pensamento voltava-se para a garota.
Durante tempo, após a morte da esposa, ficara sozinho. Jogara-se no trabalho, achando que isto era para viver tranquilo. Os colegas ficavam preocupados, convidando alguma companhia feminina para os jantares. Gostava, mas procurava não se envolver.
Depois que passara a sair com Carlinda, afastara-se dos amigos. Não queria que o vissem fazendo passeios com a menina. Não queria ser motivo de risos. Quando brincavam e corriam nos parques, pareciam pai e filha. Ninguém duvidaria disto. Mas a amava, como nunca amara uma mulher.
Os anos foram passando. Carlinda desabrochava, tornando-se mais bela.
Um dia, chamou-a ao consultório. Dispensou a secretária. Foi envolvendo-a com carinhos, no que era correspondido. Começou a lhe tirar a roupa. Tocava-lhe o corpo, como tantas vezes fizera no consultório, como se a estivesse examinando. Conhecia o corpinho desde que tinha quinze dias de vida. Mas, agora, era diferente, o sentimento não era o de um médico examinando a paciente. Carlinda deixou-se envolver, correspondendo.
Os encontros tornaram-se públicos, e o amor era do conhecimento de todos. Não temiam mais o que as pessoas iriam falar. O importante é que se amavam. Mesmo os pais, que a princípio não admitiam o relacionamento, já aceitavam.
— Artur, Artur...
Carlinda entrara no consultório sem se fazer anunciar pela secretária.
— O que aconteceu, meu amor, por que a euforia?
Atirou-se nos braços dele, apertando-o.
— Artur... eu...
— Por favor, diga. O que aconteceu?
— Estou grávida.
— Minha linda criança! Eu te amo tanto! Agora mais do que nunca. Nosso filho será a coroação do nosso amor, disse abraçando-a carinhosamente.
Lágrimas rolaram dos olhos azuis.
sábado, 20 de março de 2010
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