O salão de festas do melhor clube da cidade cheio de gente. Curiosos para assistirem ao julgamento. No lugar mais alto, onde era o palco, autoridades: o juiz, o promotor de justiça, o assistente da acusação, o advogado de defesa e o escrevente. Um pouco mais abaixo, do lado direito, sete jurados: três mulheres e quatro homens. No centro, a figura principal: o acusado. Sentado, com um policial de cada lado, cabeça baixa, parecia alheio ao que se passava. Quando ouviu seu nome, despertou. Levantou-se e aproximou-se do juiz, para ser interrogado.
Fez-se silêncio no Tribunal do Júri. Os assistentes pareciam nem respirar, vendo o criminoso, que se tornara famoso: três mortes de uma só vez.
Em frente ao Juiz, de pé, com as pernas tremendo, preparou-se para as perguntas. Juntou as mãos, tentando segurá-las, para que não vissem o quanto tremiam. Vestia um casaco de couro, velho, esfarelando. As botas sofriam do mesmo mal. A calça surrada. Um remendo nos joelhos tentava disfarçar o rasgão. Rosto marcado pelo sol, coberto de rugas, parecendo um mapa de registro de sofrimentos. Mãos calejadas que nem os dias que ficara recolhido no presídio mudara o aspecto. Baixo, com calvície acentuada, orlada por cabelos grisalhos.
— Diga seu nome — ordenou o Juiz.
— Antero dos Santos e Silva — murmurou.
— Não ouvi. Diga bem alto o seu nome, para que todos possam ouvi-lo.
"Como se já não me conhecessem, já não soubessem tão bem o meu nome, que já rolou de boca em boca".
Limpando a garganta, repetiu o nome de forma a ser ouvido.
Ia respondendo, já mais calmo, conseguindo articular as palavras, de modo que o Juiz não precisou mais adverti-lo.
Lida a acusação, o Juiz perguntou se era verdadeira a imputação que lhe era feita.
— Sim.
Respondeu sem vacilar.
Terminado o interrogatório, voltou para o lugar, no meio dos dois policiais. Largou-se na cadeira, parecendo que o corpo ia desmontar, tão grande a tremedeira. Discretamente, um policial tocou-lhe o braço e murmurou ao ouvido:
— Calma, Baixinho.
Ficou grato ao policial, que procurava dar-lhe alento. Mas como manter-se calmo, sabendo o que teria de passar, tudo o que o esperava naquele júri?
Prestou atenção na testemunha.
— Sim, doutor Juiz, vi tudo. De repente, o Baixinho chegou e começou a atirar para todos os lados.
Era verdade. Tudo o que diziam era verdade. Mas a maneira como diziam é que o deixava magoado. Ninguém via seu sofrimento. Ninguém tinha pena dele. Só queriam acusá-lo. É certo que nada, nada mesmo, justificava-lhe o ato. Mas estava feito. Precisavam fazê-lo sofrer ainda mais? Já não chega o remorso?
— Com a palavra a Acusação — diz o Juiz.
Olhou para o jovem Promotor de Justiça. Alto, cabelos castanhos bem penteados, vestindo terno de cor cinza, de bom alfaiate, gravata de seda pura e um alfinete de ouro enfeitando a lapela; sapatos novos, brilhando. Era uma bela imagem de homem, bem sucedido na vida. Mas tão duro, que suas palavras produziam cortes, faziam sangrar. Lentamente, foi-se desligando. Não queria ouvir que o acusador falava. A vida passou a desenrolar à sua frente.
Quando se deu conta da existência, encontrava-se num internato. Gostava de tudo, nada reclamava, era apático e sem iniciativa. Dora era a pessoa que mais lhe dava atenção e carinho.
— Baixinho, vem cá. Senta aqui, no meu colo. Quero contar-te uma historinha.
Ia para o colo e escutava. Nunca se queixava, nem pedia nada. Mas, aos poucos, foi-se dando conta de que sua vida era diferente. Quando chegava alguma criança nova no internato, contava histórias que nunca tinha ouvido: pai, mãe, irmãos, família, lar.
Um dia, perguntou à Dora:
— Por que não tenho pai, mãe e irmãos, igual ao Carlos?
Dora ficou embaraçada, pegada de surpresa. Baixinho era dócil, desligado. Nunca fazia pergunta. Somente aceitava o que lhe era concedido. Sabia tudo da vida da criança. Mas como contar a verdade?
De uma fuga do presídio, o pai estuprara uma jovem prostituta, que se recusara a servi-lo. A jovem fora tão maltratada, que correra risco de vida, ficando internada, vários dias, no hospital. Quando teve alta, fugiu da cidade onde morava, continuando a vida de prostituição com ódio dos homens. Mas precisava trabalhar. Quando percebeu a gravidez, já era tarde para interrompê-la, embora tenha usado os métodos que lhe ensinaram. Ao dar à luz, fugiu do hospital, sem mesmo ver o filho. O bebê foi oferecido, mas ninguém o quis. Então, foi levado para o internato. Ali, Dora o recebera, dispensando-lhe carinho, tentando compensar a ausência de uma família. Até então, tinha conseguido. O menino era feliz, à sua maneira. Mas agora vinham as perguntas.
— Querido, teus pais foram para o céu. Só tens a mim, que te amo.
Isto foi o suficiente. Não houve mais perguntas.
A vida era uma rotina. Não tinha entusiasmo por nada, não ria, não cantava, não corria como os demais meninos do internato. Tinha dificuldade no aprendizado, repetindo as séries.
Um dia, Dora chegou-se para ele com reserva, para dizer-lhe alguma coisa.
— Baixinho... és o melhor menino do mundo... és o meu filhinho... Sentiu um alerta. Nunca vira sua Dora daquele jeito. Alguma coisa séria estava acontecendo. Segurando as mãos de Dora, implorou:
— Por favor, Dora! Fala logo! O que está acontecendo?
— Vão te levar... sabes que podes me visitar sempre que quiseres...
— Como me levar? Pra onde?
— A diretora entrou em contato com uma família. Aceitaram ficar contigo, para ajudar no trabalho do campo.
Não reclamou. Lamentava sair de perto de Dora. Só isto.
Desde que chegou à casa da família Passos, o sofrimento iniciou. Teve dificuldade de adaptação. Não falava com ninguém. Apenas respondia o que lhe era perguntado, com monossílabos. Realizava o trabalho, conforme lhe ordenavam. Acordava cedo. Ia trabalhar. Voltava à noite. Dormia. Nada acontecia de diferente. Aos poucos, foi aprendendo a conviver com os demais, em harmonia, frequentando as festividades do local, indo à igreja, às corridas, às marcações de gado.
Quando começou a sair sozinho, sentiu-se perdido. Não sabia o que fazer. Através de um colega de trabalho, conheceu Ivete, jovem prostituta, por quem se interessou. Começaram a fazer gozações.
— Qual é, Baixinho? Estás apaixonado? Cuidado com a Ivete, é esperta.
Não respondia. Ivete era linda moça, que se vestia espalhafatosamente, para chamar a atenção dos homens. Mas, talvez por piedade, por vê-lo apaixonado, resolveu aceitá-lo. Foi desagradável. Embora a experiência de Ivete, não conseguiu manter relações sexuais, pois se lembrava da mãe, que, segundo Dora contara, era prostituta e fora estuprada por um presidiário. Procurava tratar Ivete com carinho e respeito, mas ela dava gargalhadas na cara dele.
Recolheu-se mais ainda. Não levantava a cabeça para olhar as mulheres, sempre com medo de ouvir as mesmas gargalhadas de deboche.
Quando a carne reclamava, utilizava-se de algum animal da estrebaria.
Um dia, quando caminhava sozinho pelo milharal, foi abordado por três homens, altos, fortes, fazendo com que se sentisse ainda mais baixo. Nunca os tinha visto. Inicialmente, um deles lhe pediu fogo. Respondeu que não fumava. Deram gargalhadas.
— O que mais não fazes, boneca?
— Será que não queres dar uma festinha pra nós?
Ficou em silêncio. Os homens começaram a empurrá-lo. Tentava fugir, mas eram mais rápidos. As gargalhadas eram tantas, que queria tampar os ouvidos. Mas precisava defender-se. Lutava como podia, mas os brutamontes não lhe davam condições. O mais alto deu-lhe uma rasteira. Caiu. Jogaram-se em cima dele. Com uma faca, um deles foi-lhe rasgando a roupa, enquanto os outros o imobilizavam.
Quando acordou, abriu os olhos lentamente. Viu o céu coberto de estrelas, ouviu os grilos cantando no milharal. Nu, com o corpo dolorido das sevícias e maus tratos que lhe infligiram, nem tinha forças para se levantar.
O ódio intenso. Foi convivendo com ele, planejando a vingança, saboreando-a com requintes de perversidade, o que o ajudava a viver.
Passado alguns anos, ocorreu uma festa, com a marcação de gado na fazenda. Como já estava acostumado a participar de tal evento, ficou na expectativa. Havia gente por todo lado. Das fazendas vizinhas e das mais distantes chegavam pessoas. Havia churrasco e bebida à vontade. Todos alegres, principalmente pela bebida.
Dirigia-se para um grupo próximo, onde tinham dificuldade de agarrar um touro, quando ouviu as gargalhadas. Sentiu um arrepio. O coração a bater descompassadamente. Nem que vivesse cem anos esqueceria aquelas gargalhadas.
Com as pernas trêmulas, foi-se aproximando. Os três homens gargalhavam, gargalhavam, gargalhavam, juntos à corda que prendia o animal. A reação foi imediata: sacou do revólver e atirou, em leque, acertando mortalmente os três, que caíram sem um ai, em cima do animal.
— Por isto, senhores jurados, peço a condenação do acusado, para que esta sociedade fique livre de tão perigosa criatura, que ceifa vidas sem piedade.
Despertou com os gritos do Promotor de Justiça. Acabara a acusação, sem que tivesse ouvido sequer uma palavra.
O que sabia o jovem da vida? Por certo nascera em berço de ouro, tivera pai, mãe, uma família. Ama e é amado. Como pode julgar seu ato, acusá-lo?
Eram quatro horas da manhã, quando o Juiz leu a sentença:
— ... isto posto, condenando-o a quarenta e cinco anos de prisão.
sábado, 20 de março de 2010
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