OBEDIÊNCIA
Era primavera. Carla foi passear no Parque da Redenção, em companhia dos pais. Enquanto estes rodavam de bicicleta, ela flutuava sobre o lago, dirigindo um pedalinho. Era jovem e sonhadora. Por isto, gostava de ficar sozinha, para sonhar com seu príncipe encantado.
Naquele dia, quando chegou, viu um rapaz que despertou seu coração. Então, aproveitava para fazer fantasias com ele. Imaginava-o chegando até ela, tomando-a nos braços e beijando-a com suavidade e carinho.
Enquanto isto, dirigia mecanicamente o pedalinho, sem se dar conta da direção que tomava, indo parar na margem oposta, onde os chorões pendiam.
— Boa tarde, senhorita!
Assustou-se, sem saber se ainda sonhava, pois o objeto das fantasias estava à frente.
Olhou para os lados, piscou, mas ele continuava ali. E o pior: rindo dela. Resolveu reagir:
— Isto é jeito de ficar aí, assustando as pessoas?
— Peço sinceras desculpas. Não pretendia assustá-la.
O olhar e o sorriso desarmam-na. Reconhecia nele o mesmo jovem que antes lhe despertara a atenção. Ficou ruborizada. Era como se ele estivesse há tempo ali parado, vendo as fantasias que com ele fizera.
Foi dirigindo o pedalinho para a saída, deixando-o a falar sozinho.
Quando desceu, esperava-a. Tentou fugir, mas ele a seguia.
— Por favor, não me leve a mal. Podemos conversar um pouco?
Caminharam em silêncio. Sentaram-se em um banco.
— Costuma vir aqui?
— Não. Foram poucas as vezes. Mas, hoje, meus pais me convidaram, e gostei da ideia. Está um dia tão lindo que não dava para ficar em casa.
— Onde estão seus pais?
— Devem andar por aí. Estão de bicicleta.
— Então, podemos ficar conversando até chegarem?
Concordou. Ele se apresentou: Rafael, natural e residente no Rio de Janeiro, estando em Porto Alegre a tratar de uma vaga. Era solteiro e no momento sem namorada, mas procurando uma.
Carla ficou ouvindo-o contar detalhes. Tudo o que dizia parecia-lhe interessante.
Não parava de falar. Por isto, manteve-se calada até os pais chegarem. Apresentou-lhes Rafael, e saíram juntos para um lanche.
Rafael agradou os pais da moça. Tanto que permaneceram juntos o restante da tarde. Ao final, ficou combinado que no dia seguinte iria visitá-los.
Começaram a namorar. Ele havia conseguido o emprego e passara a morar em um apartamento perto da casa dela. Carla estava apaixonada. Era a primeira vez que dedicava tanto carinho a alguém. Amava-o e era correspondida. Marcaram o casamento.
Menina mimada. Filha única. Pais idosos, atendiam os desejos da filha. Quando quis casar, prontamente concordaram, mesmo achando que era jovem e ainda não estava preparada para assumir tal compromisso.
Realizaram grande festa de casamento. Carla parecia uma rainha, dirigindo-se ao seu trono, quando era conduzida pelo braço do pai para o altar, onde Rafael a esperava.
Depois da festa, o casal partiu para lua-de-mel na Europa, presente dos pais. Quando retornaram, foram residir na casa nova que haviam construído para o casal. Viviam felizes. Rafael continuava tratando-a como os pais faziam, cobrindo-a de carinho, satisfazendo o menor de seus desejos, até que engravidou.
Quando chegou do trabalho, encontrou uma Carla diferente, aos prantos.
— O que aconteceu, querida? — perguntou — abraçando-a.
Desvencilhou-se abruptamente, aos gritos:
— És o culpado. Eu te odeio. Suma da minha frente. Suma. Nunca mais quero te ver.
Não entendia. Sempre fora dócil, meiga, carinhosa. Quando chegava à casa, vinha correndo, atirando-se em seus braços, cobrindo-o de beijos, falando do amor que sentia. Agora, parecia transformada. Continuava gritando, dizendo que sumisse, repetindo que o odiava, que era o culpado. Ficou sem saber o que fazer. Deixou-a falar, até se cansar. Aos poucos, foi-se acalmando, sentando-se no sofá. Só então, voltou a perguntar o que estava acontecendo.
— Estou grávida! Estou grávida!
Voltou a chorar convulsivamente.
— Grávida?! Meu amor!! Então é isto? Que susto me deste. Pensei que tinha acontecido alguma coisa ruim.
Um filho. Sempre quisera um. Mas Carla não queria falar no assunto. Quando tentava, ela procurava falar em outra coisa. Não se preocupava, porque era jovem e porque estavam há pouco tempo casados. Mas, agora, não entendia a reação. Deveria estar feliz. Um filho viria para partilhar da felicidade dos dois. Seria maravilhoso. Mas Carla não pensava assim.
A vida virou um inferno. Carla mudou o humor. Bastava chegar para ouvi-la gritar:
— Suma! Suma daqui! Não quero mais te ver!
Mesmo com a intervenção dos pais, continuava insultando-o.
Depois que a criança nasceu, acalmou-se. Aparentemente, amava a filha, cuidando-a com carinho. A criança crescia saudável, graciosa, um encanto. Rafael amava-a, procurando encontrar nela o amor que a esposa lhe negava. Sempre que podia, ficava junto da menina. Mas quando Carla era contrariada por qualquer coisa, ficava de mau humor e voltava a gritar:
— Suma daqui! Suma daqui. Não quero mais te ver!
Aos poucos, foi-se acalmando. Voltaram a ter um relacionamento razoável, em companhia da filhinha. Rafael tomava cuidado para não a contrariar. Quando Clarissa estava com dois anos, Carla engravidou novamente. Voltou-se a repetir a cena:
— Suma! Suma! Suma!! És o culpado de tudo!
Gritou tanto que Rafael ficou desesperado, sem saber o que fazer. Não aguentou. Saiu e não voltou mais. No início, ninguém se preocupou. Mas os dias foram passando. Rafael sumira. Embora as investigações, não o encontraram.
Inicialmente, pensaram que houvesse voltado para o Rio de Janeiro. Mas nada. Nem pais, nem irmãos, ninguém vira Rafael.
Carla deu à luz novamente. Outra menina. Ficou sozinha com as duas crianças.
Os anos foram passando. Às vezes, alguém vinha com novidades:
— Viram Rafael no Rio de Janeiro, pedindo esmolas, todo esfarrapado, debaixo de um viaduto.
— Aconteceu um acidente com um ônibus, no Rio de Janeiro. Rafael estava nele e morreu.
— Um amigo me garantiu que viu Rafael dirigindo um carro, no Rio de Janeiro.
Com o passar dos anos, silenciaram. Ninguém trazia notícias.
Carla sofria. Amava o marido. O que acontecera? Por que se comportara daquele modo, mandando-o sumir? E ele precisava agir com tanta obediência?
Ficou sozinha, cuidando das filhas. Nunca se interessou por outro homem. Às vezes, ficava parada na porta da casa, esperando Rafael. As lágrimas escorriam. Ela as bebia, uma a uma. Não levava as mãos para secar os olhos, para que as meninas não a vissem chorar.
Quando perguntavam pelo pai, respondia:
— Sumiu!
Com os avós é que as crianças ficaram sabendo como era o pai e como foi tratado pela mãe. As meninas não se revoltaram, porque tinham a compreensão do quanto a mãe sofria com a ausência que ela mesma provocara.
As filhas cresceram, namoraram, casaram, tiveram filhos, e Rafael não mais retornou.
Carla foi envelhecendo, sempre às voltas com as filhas, depois com os netos.
Hoje, já com os cabelos grisalhos, serena, senta-se na varanda da casa, tricotando roupinhas para o primeiro bisneto que vai chegar. Deixa descansar sobre o colo as trêmulas mãos, e o olhar fica perdido, olhando para a entrada da casa, pensando em Rafael que, com obediência, atendera a sua ordem: sumiu.
sexta-feira, 12 de março de 2010
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