sábado, 20 de março de 2010

SENHOR PRESIDENTE

Pela manhã, saí para adquirir um casacão, que se fazia necessário para minha viagem ao Japão. Estacionei o carro na primeira vaga que encontrei e fui à loja, onde dias antes havia visto o que precisava.
Após a compra, ia em direção ao local onde deixara o carro, quando uma cena chamou-me a atenção: sob a marquise da loja, três mendigos se reuniam, com objetos sujos ao redor. Automaticamente, meus olhos se fixaram nos de um deles. Levei um susto.
— Senhor presidente! — exclamei baixinho, afastando-me rapidamente do local, com o coração em sobressalto.
Jamais esqueceria aqueles olhos. Eram de um negror acinzentado, duros, lâminas aço.
Já no carro, voltando para casa, meus pensamentos começaram a visualizar um passado não muito distante, que se projetava em minha tela mental.
Há dois anos que prestava serviços na Silvanus & Cia. Ltda., graças à ajuda de uma senhora na casa de quem antes havia trabalhado como empregada doméstica. Durante os dois anos, raras vezes tinha visto o presidente da companhia. Sequer sabia o nome, pois apenas se referiam a ele como o “senhor presidente”.
Histórias eram contadas sobre ele. Nascera numa família rica, pois a Silvanus era grande empresa, com sucesso no mercado há gerações.
O “senhor presidente” fora um menino travesso, que vivia dando dores de cabeça aos pais, desde o início da escolaridade. Rico, muitas das coisas que fazia eram toleradas, no colégio. Mesmo assim, teve de trocar, pois a situação ficava tão difícil que a direção chamava o pai, para solicitar que o retirasse.
Quando jovem, foi estudar na Inglaterra, pois da família Silvanus ainda existiam parentes lá. Suspiraram aliviados, mesmo sabendo que lá iria fazer confusões. Apesar de tudo, conseguiu completar a faculdade, voltando com o diploma de engenheiro.
A vida do pai tornou-se um inferno, com o retorno. Já com idade, não suportava mais os desgostos causados pelo filho. Um dia, encontraram-no morto no quarto, baleado com quatro tiros. As suspeitas recaíram sobre o filho. Afirmavam que havia tirado a vida do pai, para assumir o lugar de presidente da Silvanus. Mas nada ficou apurado.
Passado meses, a mãe foi encontrada morta, com ataque cardíaco.
Ao assumir a presidência, houve agitação, por temerem pela sorte da Silvanus.
Certo dia, quando encontrou com um amigo de infância, este brincou:
— Posso te chamar de Júnior, como sempre, não?
E obteve como resposta:
— Quando a sós, sim. Porém, quando estivermos perto de outras pessoas, por favor, chame-me de “senhor presidente”.
O fato foi comentado. A partir de então, chamavam-no de senhor presidente.
Encerrava meu trabalho, quando o chefe do escritório me chamou.
— Clara, a Alzira vai sair de férias. A partir de amanhã, deverás fazer um treinamento para atenderes o senhor presidente.
— Eu?! Não posso.Tenho medo dele.
Mas precisava do emprego.
No dia seguinte, na hora marcada, encontrava-me com Alzira, para receber as orientações.
— A primeira coisa a fazer é um uniforme. O senhor presidente não admite que se chegue ao seu gabinete sem estarmos devidamente uniformizadas. É zangado. Precisas cuidar para não fazer nada errado, porque se isto acontecer a culpa também será minha, por não te ter treinado direito. Veja bem a responsabilidade.
Com medo, as palavras de Alzira terminaram por me deixar em pânico. Conhecia bem a má fama do patrão.
Minha função seria organizar e manter limpo o gabinete e servir o que pedisse. Nunca tinha entrado no local. Fiquei extasiada quando Alzira me conduziu. Era algo que não tinha visto. O último andar era ocupado por ele. Quando o pai morrera, mandou reservar um elevador. Não admitia que ninguém o usasse. O piso era de mármore branco e as paredes revestidas com espelhos. Os acabamentos de filetes de ouro. No teto, um lustre de cristal tomava conta, com os mesmos filetes. Era chaveado e somente o senhor presidente tinha acesso. O gabinete era de requinte, luxuoso de chamar a atenção e servir para comentários entre os empresários que o frequentavam. Tapetes persas revestiam o andar. Os móveis feitos sob encomenda e dispostos no local por famoso decorador da cidade.
Alzira chamou-me a atenção, pois eu fiquei paralisada, boquiaberta, contemplando o local que nem em sonho imaginava que existisse. Conduzia-me pelos ambientes, mostrando-me o que fazer em cada um, recomendando-me os cuidados que deveria ter com este ou aquele objeto, pois eram peças caríssimas e raras.
— Clara, presta atenção, pois o senhor presidente não gosta que tirem nada do lugar. Sabe exatamente em que posição tudo se encontra. Cuidado!
Não respondi nada. Se pudesse sair dali. Mas precisava do emprego.
Durante os dias do treinamento, Alzira ia me contando o que sabia das façanhas do senhor presidente.
Casara quando ainda na Inglaterra, com uma jovem que conhecera em um baile. No início do casamento, parecia correr bem. Porém, aos poucos, o marido passou a mostrar o verdadeiro caráter. Começou passando noites na rua, com mulheres, bebedeiras e drogas. Depois, a trazer mulheres e drogados para casa, a maltratar fisicamente a esposa, obrigando-a a usar drogas.
Reuniu um grupo de drogados em casa. Parecia alucinado. Chamou a esposa para o quarto, onde demais estavam. Quando entrou, foi agarrada por ele e jogada na cama. Sob ameaça, tirou-lhe as roupas, mantendo toda espécie de abuso sexual, sob as risadas dos amigos. Quando se cansou, ofereceu-a para os presentes. Em decorrência, teve de ser hospitalizada. Foi o fim do casamento.
Na empresa, recebia os companheiros de farras e de drogas, onde aprontavam orgias, perdendo verdadeiras fortunas no cassino clandestino que mandara instalar.
Aos poucos, foi-se aprofundando no mundo dos crimes, organizando grupos de tráfico de mulheres e de drogas. As mulheres ele mesmo escolhia, selecionando-as entre as que eram trazidas, prometendo-lhes fortunas fáceis e vida de luxo no exterior.
Chegou o dia de Alzira entrar em férias. Alertou-me, mais uma vez:
— Não te esquece, Clara. Terás de ter o máximo de cuidado para não falhar em nada. Amanhã, não estarei mais aqui. Terás de atender um grupo de empresários. Boa sorte!
Abracei Alzira e, sorrindo, para mostrar segurança, respondi-lhe:
— Vai sossegada. Não te preocupa. Tudo vai correr bem. Já estou treinada. Boas férias!
Na verdade, sentia-me insegura. Precisava agir com cautela para que nada desse errado.
No dia seguinte, a empresa em reboliço. Corriam de um lado para outro, organizando tudo, para receber os visitantes.
Preparei-me com esmero. Vesti o conjunto de uniforme, novo. Uma saia reta, com discreta abertura atrás, camisa de seda branca e casaco azul marinho da mesma cor da saia. Usei sapatos pretos, de salto alto. Prendi os longos cabelos com um arranjo de tule e cetim. Senti-me elegante.
Quando a secretária particular avisou-me a hora de servir os sucos, encontrou-me com tudo organizado. Sai empurrando o carrinho com taças e jarras. Entrei no gabinete e minhas pernas se chocavam, de tanto tremer. Fui servindo os convidados. Por último, o senhor presidente. Apreciava suco de tomate. Preparei a bandeja e dirigia-me para ele, quando o salto do sapato prendeu no tapete. Meu corpo foi projetado, e o suco voou para o rosto do senhor presidente.
A cena seria divertidíssima, se não me tivesse custado o emprego.
Em fúria, o senhor presidente descontrolou-se e, aos gritos, despediu-me na mesma hora.
Mantive-me em contato com Alzira, de quem tinha notícias do senhor presidente, que cada vez mais afundava no mundo de crimes, orgias, jogatinas e drogas. Um dia, os jornais traziam estampada a grande manchete: A Silvanus faliu.
A empresa fora à falência, e o dono desaparecera, para fugir das ameaças de morte dos grupos com os quais se envolvera nos crimes.
Estacionei o carro em frente à minha casa. Antes de entrar, fiquei parada por uns momentos, revivendo a cena dos três mendigos. Que vida teria levado aquele homem, que hoje nada mais tinha do “senhor presidente”?

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