A vida sempre foi confusa. Não entendia nunca o por quê das coisas. Quando se deu conta da existência, passou a observar com atenção o que se passava ao redor. Primeiro era a mulher, que só mais tarde soube que se tratava da mãe. Nunca entendia o que queria. Chorava de fome, dava-lhe água. Chorava de calor, e o cobria mais. Queria mamar, negava-lhe peito. Só raramente conseguia sentir o seio quente matando-lhe a fome. Procurava sugar rapidamente, pois não o teria por muito tempo. Ela procurava sempre uma desculpa para fugir.
— Teresa, preciso sair. Traga uma mamadeira para o João.
Teresa era prestativa. Cumpria a ordem. A mamadeira vinha gostosa, mas não tinha o mesmo sabor do leite materno, nem o aconchego dos braços da mãe.
Outras vezes, brigava.
— PAra, João! Este menino só quer me morder.
“Não mãe, não é isto, estou apenas tentando te segurar, para que não fujas outras vez”.
Mas o que ela ouvia era apenas o choro desesperado. Não o escutava. Nunca atentava para as queixas. Só reclamava.
— Não aguento este menino. Não para de chorar. Não sei o que quer. Isto me desespera. Teresa, cuida dele!
“Mamãe, por favor, escuta. Quero apenas um pouco de carinho. Olha pra mim. Me põe no colo, me encosta junto a teu coração”.
À medida que foi crescendo, entendeu que seria inútil reclamar. Ela era surda para seu chamado. Desistiu. Olhava-a, apenas. E com os olhos tentava comunicar-se. Nada.
Aprendendo a falar, deu-se conta de que, mesmo assim, não o ouvia. Quando fazia uma pergunta, apenas balançava a cabeça, sempre com um não. Nem mesmo queria pedir alguma coisa, apenas atenção. Quando engatinhava pela casa e por ela passava, tentava agarrá-la segurando-lhe as pernas. Desvencilhava-se logo, deixando-o caído, chorando.
Acostumou-se a ficar só.
O pai o amava. Sentia isto. Mas quase nunca ficava em casa. Fugia, mas fugia da esposa. Não conseguia suportar o convívio. Então, sumia, esquecendo do filho. Mesmo assim, nos poucos momentos que lhe dedicava carinho, ficava feliz. Sentia que era amado.
Acordou cedo. À noite, sonhara que os pais brigavam. Sempre faziam isto. Ou não foi sonho? Não foi. Pensando bem, não sonhara. Era de verdade. Discutiam mais uma vez, enquanto ele, trêmulo, ouvia.
Era a mesma coisa. Bastava o pai chegar à casa, e a briga começava. Não entendia por quê. A mãe zangada. A gaveta da loja dela era cheia de dinheiro. Via quando as pessoas davam o dinheiro e saiam levando objetos. Mas quando o pai chegava, à noite, cansado, pedia dinheiro para ele. Aí começava a briga. Era todo dia.
Por isto, entendia o pai. Só fugindo de casa ficava livre dos gritos dela. Às vezes, mandava-o pedir dinheiro para o pai. Não queria pedir, mas não deixava de atender.
Agora, sabia que não fora sonho. Discutiam mais uma vez. Mas alguma coisa mudara. Falavam coisas diferentes. Diziam que iriam se separar. É... é isto mesmo, tem certeza. Falavam em separação, gritavam, ela chorava. Viu, então, que algo mudara. Conversavam. Nunca os vira conversar.
Ficaram em silêncio, quando lhe notaram a presença. O pai dirigiu-se a ele:
— João, te amo e não quero te perder. Sei que não sou um bom pai. Mas foi porque as circunstâncias me levaram a isto. Te amo, filho, de verdade.
Ficou inseguro. Via o pai emocionado, de olhos vermelhos. Não queria vê-lo chorar. Sempre fora forte. Enfrentava a esposa com firmeza.
— Filho, ouça. Vamos morar em casas separadas. Tua mãe quer ficar contigo e eu também. Como não chegamos a um acordo, precisamos procurar ajuda para resolver. Vamos sair, nós três. No Foro vão nos ajudar.
Não entendeu, mas nada falou. Acostumara-se a não discutir, depois dos anos em que tanto reclamara e ninguém ouvira.
Quando chegaram, foram encaminhados ao gabinete da autoridade, conforme explicara o pai.
Voltaram a discutir. A mãe chorava.
“Que chore. Não me incomodo. Quantas vezes chorei, pedindo ajuda, e ela se fez de surda?”.
Falavam em dividir coisas. Mas ambos queriam o mesmo objeto. Precisava a autoridade intervir, para que chegassem a um acordo. Depois, parece que também queriam dividi-lo. A mãe ficou agitada.
— João ficará comigo, é claro. Sou a mãe dele. Ninguém saberá cuidá-lo como eu.
“Cuidar? Desde quando me cuidou? Nem sabe que existo. Dentro de casa, não me vê, nem me ouve.”
O pai não concordava. Explicava para a autoridade como era o tratamento que dava ao filho.
— Doutora, ela nunca gostou dele. Nem queria que nascesse. Fez de tudo, mas não conseguiu impedir. João foi um obstáculo na vida dela. Desde amamentar. Não queria dar-lhe o peito, pois dizia que ficaria feio. Não ficava perto dele, porque não suportava o choro. Nunca entendeu as necessidades do bebê. Hoje, João é uma criança triste, vive isolado. Ela não vê nada disto. Só cuida das vaidades.
O pai falou, falou. A autoridade escutava-o, atentamente, sem interrompê-lo.
Resolveu falar. Criou coragem. Afinal, também era um dos objetos que estavam sendo repartidos.
Olhou para a autoridade e disse:
— Doutora, não quero ficar com ela. Fico com meu pai. Ele me ama. Ela quis se livrar de mim. Agora sou eu que não quero.
Olhou para mãe, com o dedo em riste, e falou:
— Tu podes ir embora. Tens a tua mãe, podes ficar com ela. Eu fico com o meu pai.
Como a mãe tentasse reclamar, interrompeu-a:
— Tuas lágrimas não me comovem. Muito chorei, pedindo tua ajuda. De nada adiantou. Eras surda aos meus apelos. Agora, também estou surdo. Fico com meu pai. Está decidido.
Disse as últimas palavras olhando para a autoridade. Achou que tinha gostado do que dissera. Baixou a cabeça por uns instantes. Ficaram em silêncio.
Quando ergueu o rosto, dos olhos, de um azul límpido, as lágrimas rolaram, sem que movesse sequer um músculo da face.
terça-feira, 16 de março de 2010
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