Teresa tivera a vida dirigida para a paz. Desde pequena, os pais procuraram orientar os filhos para não brigarem, serem gentis com as pessoas.
— Prefiro que os chamem de covardes, a saber que bateram ou feriram alguém, diziam.
Os irmãos seguiram à risca a determinação. Tiveram uma infância feliz. Quando adultos, passaram a orientar os filhos da mesma maneira. Viviam em paz.
Crescera sob os cuidados dos pais e irmãos, por ser a única menina na família. Entre os amigos, conheciam a tranquilidade, a serenidade com que enfrentava agressão verbal ou física que lhe fosse dirigida.
Casou e teve quatro filhos, três meninos e, por último, uma menina. Como os pais, também costumava dizer aos filhos:
— Não quero receber queixa de que vocês bateram em alguém, mesmo que apanhem. A agressão leva a mais agressão. Se quisermos um mundo de paz, temos de começar por darmos exemplo. Essa de se dizer que “não levo desaforo para casa” é que deu no que deu: um mundo onde a agressividade impera.
O marido, felizmente, embora não tivesse a mesma opinião, não a contrariava, quando dava conselhos de não agressividade às crianças.
Os filhos casaram, dando-lhe dois netos cada um. A filha, Laura, permaneceu solteira por mais tempo, fazendo companhia aos pais.
Quando conheceu Paulo, decidirem casar. Mas somente depois de decorridos quatro anos de noivado, é que marcaram a data. Organizaram tudo com cuidado, sem pressa.
No dia do casamento, Teresa estava feliz. Contratara o melhor clube da cidade para realizar a festa e participava ativamente, dando opinião aos organizadores.
A igreja matriz engalanada para receber Laura, no seu vestido branco. Parecia uma princesa dos contos de fadas. Do altar, a mãe contemplava-a emocionada, deixando as lágrimas rolarem, quando a filha iniciou a entrada na igreja, ao som da marcha nupcial.
Após o casamento, foram para o clube.
Em determinado momento, Edgar, o netinho mais jovem, chegou perto de Teresa com um revólver de brinquedo. Ficou surpresa. Na família, há algumas gerações, havia o consenso geral de que não se daria arma de brinquedo aos filhos. Perguntou:
— Edgar, quem te deu isto?
— Achei, vó, quando desci do carro, na frente do clube
Teresa pegou o brinquedo e o examinou. Era perfeito. Parecia um revólver de verdade. Disse para o menino que iria guardar e colocou-o na bolsa.
A festa animada. Teresa observava, cuidando para que nada falhasse. Em determinado momento, verificou que esquecera as taças de cristais para os noivos fazerem o brinde. As taças estavam sendo usadas pelos noivos da família há alguns anos. Não poderia deixar faltar para o brinde da filha. Sem dizer nada, foi até a casa buscá-las.
Estacionou o carro em frente e entrou, sem fechar a porta.
Cirilo passava na rua, quando viu a porta aberta. Parou para observar. Não havia movimento de pessoas. O faro de profissional do crime foi despertado. Desde criança, envolvera-se com toda sorte de trapaças e drogas, até as entradas na prisão. Lá especializou-se. Quando conseguia liberdade, não durava muito. Logo praticava algo que o fazia retornar à prisão. As façanhas foram se tornando cada vez mais conhecidas. Era um criminoso famoso. Fora condenado há vários anos de prisão. Tanto que o restante de sua vida seria pouco para cumprir a pena. Há um mês, encabeçou o motim que o levou para fora das grades. Ficou tempo escondido. Naquele dia, porém, resolveu dar uma volta.
Teresa ajeitava as taças no estojo, quando ouviu um ruído. Ficou atenta. Pelo espelho, viu um homem se aproximando com um revólver na mão.
Nem pensou. Automaticamente, pegou o revólver de brinquedo da bolsa e engatilhou. Quando Cirilo apareceu na sua frente, desferiu um tiro. Viu o bandido levar a mão ao peito e cair.
Voltou para festa, entregou as taças aos noivos para o brinde, atendeu os convidados com alegria.
Quando retornaram para casa. O filho mais velho chegou primeiro. Estranhou a porta aberta. Foi entrando, com cuidado.
No meio da sala, um homem morto. Em cada mão havia um revólver, sendo um de brinquedo.
Quando a polícia chegou, Cirilo foi identificado. Era o bandido mais perigoso que havia na cidade, disseram. Os noticiários fizeram estardalhaço. Mas o mistério nunca foi desvendado.
A perícia constatou que o coração fora esfacelado como se tivesse levado um tiro, embora não houvesse qualquer ferimento externo no corpo.
terça-feira, 16 de março de 2010
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