sexta-feira, 16 de abril de 2010

AS AVENTURAS DA ANINHA

Nasceu numa manhã de primavera. O perfume das flores, as folhas das árvores balançando levemente com a brisa, o céu azul brilhante e o sol cobrindo com raios dourados, festejavam a chegada. A natureza esperando-a.
Desde a concepção, sentira o laço de amor que a unia à mãe. Ainda que fosse apenas uma minúscula semente de vida, vibrava com o afago acolhedor que lhe era dirigido.
A partir de então, mantinha diálogo constante com ela. Comunicação perfeita. Admirava-se de a mãe ouvir tão bem o que com ela falava. Assim, ouvia com carinho e atenção o que lhe dizia. Mãe sonhadora vivia contando-lhe estorinhas maravilhosas.
O corpo desenvolvia-se normalmente, sentindo o progresso, orgulhando-se ao descobrir as peripécias que podia realizar no conforto do ventre.
Quando o pai chegava, ficava mais feliz ainda, sentindo o carinho que lhe dispensavam. Mas com o pai era diferente. Falava como se não estivesse acreditando na sua existência. Era irreal para ele. Nestes momentos, transmitia um sentimento de insegurança, que logo era sanado pela intervenção da mãe. Então, ele a afagava, acariciando o ventre arredondado da esposa.
Falavam do dia em que estivesse entre eles e faziam planos.
Quando chegou o momento de nascer, ficou insegura, mas não vacilou, querendo ver os pais. Ao primeiro impulso da mãe, projetou-se. Levou um choque. Viu-se em mãos estranhas. Outras vozes. Não ouvia os pais.
Foram momentos de angústia, mas que, felizmente, passaram rápido. Logo sentiu o afago das mãos de mãe e as lágrimas dela. Viu seu rosto sorridente, os olhos rasos de lágrimas. Queria ver o pai. Ele virou-a, beijando-a, deixando-lhe o rosto molhado de lágrimas, felizes.
Não queria mais sair de perto deles, mas foi retirada dos braços da mãe. Não gostou, mas aceitou sem reclamar, sabendo que não poderia ser por muito tempo. Logo a mãe a teria de volta.
Realmente, depois de banhada, vestida e enfeitada, voltou para perto dela. Olhava-a com carinho. Sua mãe era linda! Mais do que imaginava quando apenas ouvia-lhe a voz.
Logo reiniciaram o diálogo que mantinham antes de ela nascer. A voz da mãe a embalava. Dormia tranquila e quando acordava retomavam a conversa.
Tudo correra normalmente, dentro do clima de harmonia, crescendo saudável, inteligente e sonhadora. A imaginação fértil.
Moravam em uma casa cercada por jardim, com canteiros cuidadosamente plantados. Mais afastado, havia a floresta, com árvores lindas, algumas floridas. Lá existiam umas pedras, amontoadas uma sobre as outras, parecendo um castelo. Era seu recanto preferido. Para lá fugia, quando queria sonhar sem que ninguém a interrompesse. Para Aninha, era o desligamento da realidade. Recolhia-se, vivendo aventuras longe de tudo e de todos.
As perguntas eram tantas! Mas não encontrava resposta. Quem as colocara ali? Há quanto tempo? Será que tinham vida? Cresciam? Alguém já parara para admirá-las? Tantas e tantas interrogações.
A primeira vez que se deparou com o recanto, que encontrara as pedras, fora uma aventura.
Contava três anos de idade, quando sumiu. Alice e Jorge deixavam que brincasse solta pelo espaço que cercava a casa. Inicialmente, perambulava só pelo jardim, apenas contornando a residência. Não arriscava a se afastar mais. A liberdade ia somente aonde pudesse ouvir a voz dos pais. Bastava chamá-la e prontamente aparecia. A voz dos genitores era a segurança.
Mas, quando completou três anos, no dia da festa, foi-se afastando devagarinho, olhando para as pessoas que circulavam. Ninguém a observava. Conversavam animadamente, sem olhá-la. Queria fugir da algazarra. Só isto.
Recebiam visitas, mas não tanta gente, como hoje. Não conseguia pensar, no meio deles. Era abraçada, beijada por pessoas que nunca tinha visto. Não estava gostando nada. Então, foi-se afastando.
Quando passou pelo último grupo sem ser notada, cantou vitória. Saiu olhando para trás, para ver se não estava sendo seguida. Nada. Já não ouvia vozes. A algazarra ficara distante. O coraçãozinho batia forte, encantada com a aventura. Agora, caminhava mais rápido, em busca de alguma coisa, mesmo não sabendo o quê.
Já caminhara bastante. Sentia-se cansada. O lindo vestido rasgado das vezes que engalhara em paus e espinhos. Então, encontrou as pedras enormes. Achou estranho, porque nunca tinha visto coisa tão linda assim, tão diferente. Uma das pedras, colocada aos pés das demais, parecia uma poltrona, esperando-a. Sentou-se. Olhou o vestido.
— O que dirá mamãe? Meu vestido rasgado! Meus sapatos sujos!
Tentou ajeitar o laço dos cabelos. Tentativa inútil.
Ficou examinando o local. Olhava com interesse, mas sentia-se tão cansada, que não tinha vontade de levantar de onde sentara. Aos poucos, o sono foi tomando conta. Suavemente, deitou a cabecinha sobre a pedra e adormeceu.
O pânico instalou-se no lar dos Siqueira. Não sabiam há quanto tempo Aninha desaparecera. Como a criança andasse de mão em mão, com os convidados fazendo festinhas para ela, colocando-a no colo, caminhando com ela, entregando-lhe presentes, ninguém se preocupara. Quando começou a procurar Aninha, Alice pensou que estivesse com o pai. Levou um tempo para achar Jorge, que estava conversando com um grupo de amigos, sentados sob uma paineira, onde fora colocada mesa ao redor.
— Jorge, onde está Aninha? — perguntou, acariciando o marido pelas costas.
— Querida, faz tempo que não a vejo. Deve estar com os convidados, — respondeu, segurando-lhe as mãos, colocadas sobre os ombros.
Alice saiu à procura da menina.
— Você viu Aninha?
— Não. – respondiam.
Foi repetindo a pergunta e ouvindo a mesma resposta. Alertou e começaram a procurar.
Jorge a amparava, tentando acalmá-la, embora estivesse também assustado. Procuraram dentro da casa e nos lugares onde a menina pudesse estar. Nada. Espalharam-se pelo jardim. Nada. Começaram a gritar, dirigindo-se para os lados.
— Aninha, Aninhaaaaa... aparece. Onde estás?
Silêncio. Voltavam a se reuniam no local combinado. Ninguém a encontrara. Retomavam a busca.
Onde estaria Aninha? O desespero tomava conta.
Alice e Jorge seguiram por uma trilha. Adiante, encontram um pedaço da renda do vestido de Aninha. Respiram aliviados. Passara por ali. Apressaram o passo, gritando o nome da filha. Encontraram uma das flores que lhe enfeitava os cabelos. Estavam na pista certa.
De repente, a visão maravilhosa: Aninha!
Dormia sobre uma pedra. Alice ia gritar, quando Jorge tampou-lhe a boca.
— Querida, cuidado! Não vamos assustá-la. Olha o estado em que se encontra. Esfarrapada, disse Jorge, baixinho.
Alice não se conteve. Sofregamente, segurou a filha nos braços e apertou-a carinhosamente, cobrindo-a de beijos.
— Querida, querida, meu anjinho, o que aconteceu? — perguntava em lágrimas.
Aninha dormia, tranquilamente, mesmo com Alice revirando-a, para ver se não estava machucada.
A partir daquele dia, sempre que queria ir até as pedras, pedia para os pais e estes a acompanhavam.
Os anos foram passando. Aninha ia sistematicamente para o refúgio, como batizara o local. Agora, já tinha autorização para ir sozinha.
Criança amada e mimada, tinha o que queria. Os pais a tratavam como a uma princesinha, satisfazendo o menor dos desejos.
Aninha era grata a eles. Amava-os tanto! Mas gostava de sonhar. E seu lugar preferido era o castelo de pedras, pois achava que ali havia mistério do passado, que não conseguia descobrir. Perambulava pelos espaços entre as pedras, procurando descobrir algo que antes não observara. Ali, deixava a imaginação à solta. Lembrava-se das estórias de fadas e bruxas, reis e rainhas que a mãe contava.

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