Há dias que Aninha ia diariamente para o castelo de pedras. Saía do colégio, almoçava e ia para lá. Sentia-se bem. Levava livros e cadernos para estudar.
Ultimamente, andava gostando de desenhar. Então, aproveitava o tempo de sobra, após os estudos, para dedicar-se aos desenhos.
Hoje, no entanto, não trouxe o material escolar. Vinha com um propósito: fazer mais uma incursão pelas pedras.
— Sei que algo especial me espera. Sinto. Vou andar por lugares onde nunca estive – murmurava.
Na mochila, lanche e lanterna.
Os pais tinham preocupação com as aventuras nas pedras, mas sabiam o que realmente ela encontrava lá. Pensavam que somente ficava a observar.
A mãe fazia pergunta, Aninha respondia:
— Gosto de ficar por lá, porque tenho a impressão de que algo de misterioso existe.
— Sabes que ficamos preocupados quando te isolas. Toma cuidado, querida, — disse Alice — beijando-a e acariciando-lhe os cabelos.
Agora, caminhava na escuridão. A lanterna servia para orientá-la na direção a seguir, embora não soubesse para onde ia.
Quanto tempo caminhou, não tinha idéia. Era como se estivesse entrado num túnel sem fim.
— Aninha, cria juízo! Não será melhor voltar, enquanto ainda sabes o caminho de volta? – balbuciava.
— Não. Não volto. Quero saber o que existe por lá. Se é que existe alguma coisa.
Para afastar o suspense que se criara, começou a cantarolar.
Quando já começava a ficar assustada, com medo de não encontrar o caminho de retorno, percebeu que a claridade fazia com que já pudesse ver, mesmo sem a ajuda da lanterna. Terminava a escuridão. Mas nada estranho havia à frente. Árvores, campos, relva, flores, rios, pássaros. Caminhava examinando tudo. Na sombra de uma árvore, parou para fazer lanche e tomar água.
Refeita, reiniciou a caminhada.
— Interessante. Neste local parece que existe algo diferente, mas não sei definir. As árvores são mais vivas, alegres, o ar é puro, como se a poluição aqui não existisse.
Voltou-se. Um senhor, vestido de branco, cabelos grisalhos e um sorriso encantador, a olhava.
— Desculpe-me. Falava sozinha, porque pensei que não tivesse ninguém por aqui. Meu nome á Aninha. E o senhor, como se chama?
— Fabiano. Por aqui quase não passa ninguém. Mas como gosto de caminhar, às vezes venho por estes lados. Faz tempo que a senhorita chegou?
— Não. Só parei para fazer lanche e tomar água.
— Então, ainda não chegou à recepção?
— Não. Entrei na caverna de pedras e, depois de percorrer um túnel de escuridão que parecia não ter mais fim, cheguei até aqui.
— Humm! Escuta, querida, pelo menos já te deste conta de que morreste?
— Morri? Que brincadeira é essa? Quem é o senhor?
— Por favor, não te assuste. Tua reação é comum. A maioria reage assim. Podes me contar o que aconteceu?
Sentaram-se sobre a grama. Aninha relatou os fatos desde a vida com os pais, até o momento que entrou no castelo de pedras e chegou àquele local.
Quando terminou, Fabiano, coçou a cabeça, ficando pensativo por alguns instantes. Aninha o observava, em silêncio.
— Aqui, Aninha, só se encontram as pessoas que na Terra dizem que morreram. Esta é a nossa morada em um dos níveis espirituais da Criação.
Arregalou os olhos.
— Quer dizer que o senhor está morto? É um fantasma?
— Não, querida, não. Não estou morto, como bem podes ver. Toca-me, — disse, segurando a mão de Aninha, que não reagiu.
— Não estou entendo nada. O senhor disse que para cá só vêm as pessoas que morreram. E diz que não está morto. Como pode ser?
— Fica tranquila. Vou te explicar. Já leste alguma coisa na Bíblia?
— Já. Minha mãe lia para mim, quando eu era pequena. Eu achava um livro interessante, com histórias bonitas. Depois que cresci, às vezes leio.
— Então. Lá está escrito, nas palavras de Jesus: na casa de meu Pai existem muitas moradas. Referia-se aos níveis espirituais. Quando saímos do mundo da matéria, somos encaminhados para um desses níveis. Neles é que realizamos o nosso treinamento. Cada um tem uma função, uma atividade a realizar.
— Faz tempo que o senhor veio?
— Aqui, a contagem do tempo é diferente. Mas, digamos que já faz um bocado.
— Como é que posso ver o senhor, conversar e até lhe tocar?
— Isto não posso explicar. Também não consigo entender. É como se tivesses conseguido transpor uma barreira que separa os níveis. Deves ser uma menina especial certeza.
— Poderia dizer-me mais alguma coisa sobre esses níveis que o senhor fala?
— Claro. Como já concluí, és especial. Posso contar-te. Mas somente até onde imagino que possas entender. Nem todas as pessoas podem ouvir a verdade.
— Para começar, diga-me: quando a pessoa sai da Terra, isto é, quando morre, vem direto para cá?
— Não. Aqui é um nível mais elevado. Cada pessoa tem de realizar o treinamento de desapego, de acordo com a elevação espiritual.
— O que significa treinamento de desapego? Será que posso saber?
— Quando saímos da Terra, deixamos bens, coisas que gostamos, pessoas que amamos: filhos, pais, irmãos, esposa, amigos, enfim, tudo o que temos. Quando chegamos aqui, é difícil nos desligarmos disto. Ainda mais que os que lá ficaram não nos deixam em paz. Vivem chorando a nossa partida, pensando em nós, nos chamando. Tudo isto nos atrapalha. Então, levamos tempo para nos convencermos que a verdadeira vida é aqui. Só quando adquirimos esta certeza é que nos desapegamos.
— O senhor já fez esse treinamento?
— Já. Aqui, só estão os que já não sentem mais apego pelo mundo da matéria.
— Eu poderia conhecer mais pessoas, ver como vivem aqui?
— Claro, querida, vamos caminhar um pouco. Vou te mostrar coisas e pessoas, para que tenhas uma ideia do que é a vida aqui.
Andavam lentamente, falando. Aninha fazia uma pergunta atrás da outra. Encontraram um grupo realizando atividades diversas.
— Por que estão trabalhando?
— Nossa comunidade é laboriosa. Cada um tem uma função. Mas o importante é que trabalhamos com amor, tendo a compreensão do por quê.
— Aquela senhora está comendo. Todos comem, aqui?
— Não necessariamente. Temos os tipos de alimentos necessários, mas não sentimos fome. Só quando nos bate a saudade de comida.
— As pessoas são felizes?
— Muito, Aninha. Mas é uma felicidade diferente. Nada que envolva o material. Aqui a compreensão de felicidade não é a mesma da Terra. Nossa vida tem outro sentido.
— Posso falar com as pessoas?
— Pode. Como me vês e ouves, também podes contatar com os demais.
Na companhia de Fabiano, Aninha andava de um lugar para outro, fazendo perguntas. Para algumas, não davam resposta. Em determinado momento, foi alertada de que já estava na hora de voltar.
— Como faço para retornar para o meu mundo?
— Sei como te conduzir. Vamos retornar até o lugar onde nos encontramos.
— Por favor, senhor Fabiano, responda só mais uma coisa: o senhor já me conhecia?
— Por que perguntas?
— Pelo que entendi, aqui existe afinidade entre todos. Se cheguei até aqui e encontrei o senhor, deve haver algo mais, que minha compreensão não alcança.
— Realmente, Aninha, és uma menina diferente. E inteligente. Já nos conhecemos, sim, querida. Já compartilhamos uma vida na Terra juntos, onde vivemos um grande amor. Isto é uma coisa que não vou te explicar. Mas saiba que já em mais de uma oportunidade trilhamos o mesmo caminho e que ainda nos encontraremos algumas vezes na vida da matéria. Mas, agora, é preciso que retornes, por favor.
Fabiano olhou para Aninha com lágrimas.
— O senhor está chorando?
— Não querida, não estou. É apenas um resquício de apego que me levou a recordar algo especial das nossas vidas. Digamos: um pouco de saudade. Agora, segue por aquele caminho.
Aninha saiu, também emocionada, ainda que não entendesse. Voltou-se, para ver Fabiano mais uma vez. Ele acenava. Deu mais um passo.
Estava na frente do castelo de pedras
terça-feira, 20 de abril de 2010
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