Sentada no gabinete de trabalho, olhava as pilhas de processos à frente, sem ver nada, pensamento distante, perdida num passado longínquo. Girou a cadeira. Ficou de frente para a janela, de onde podia descortinar a floresta que se perdia na linha do horizonte. O prédio do Foro fora recentemente construído, no alto da colina, onde se localizava a cidade, ficando a parte de trás voltada para floresta, de onde vinha ar puro e saudável que a beneficiava, quando o cansaço da labuta diária era intenso.
— Amoque vai chover... —murmurou.
Começou a rir. Uma doutora não pode falar assim. Se alguém me ouve...
O pensamento voltou-se para a terra natal. Percorreu a lagoa, com a água cristalina, onde a poluição ainda não havia chegado. Foi passando pelas trilhas, pois não havia qualquer lugar que se pudesse chamar de rua, já que por lá os únicos carros que passavam eram os puxados por junta de bois.
“Amoque vai chover”. Olhou para o céu e viu nuvens escuras que se erguiam no horizonte. Lembrou da expressão usada pelo pai. Dizia as palavras de forma cantada, suavemente, como um embalo, uma canção de ninar. Era como se estivesse novamente ouvindo-o.
Somente anos depois é que procurara no dicionário a palavra “amoque” e descobriu que não existia. No entanto, nunca deixara de entendê-lo.
— Amoque este menino está com fome, dizia, olhando para o pequeno filho, sentado no chão.
Hoje, no silencioso gabinete, lembrava que aprendera tantas palavras na vida, mas aquela, e da forma que era pronunciada, deixara marca em seu coração.
Onde será que o pai encontrara? Será que a inventara ou ouvira de alguém?
Palavras. Quantas proferira no dia anterior e quantas ouvira? Palavras suaves, acalentadores, frias, confortantes; grosseiras, cortantes como a mais afiada lâmina. Palavras usadas num jogo onde uma vida dependia, onde a liberdade de um homem seria decidida.
O julgamento começara cedo, mas o Tribunal do Júri já estava lotado. Fora um dia desgastante. Embora a prova cristalina, a defesa usara de artimanhas capazes de confundir os jurados. Por isto, seu esforço teve de ser maior, para obter a condenação.
O réu era um homem rude, agricultor de um município próximo. Alto, corpulento, acostumado às lides do campo desde jovem. Tinha quatro filhas e um filho. Costumava bater na mulher, provocando-lhe ferimentos que, muitas vezes, a faziam parar no hospital. Mas, devido às ameaças, jamais revelava o que realmente acontecera. Submissa, lavava-lhe os pés, quando chegava do trabalho, servia-lhe as refeições e colocava-se à disposição para satisfazer-lhe os caprichos amorosos.
Estranhava o comportamento com as meninas. Não querendo ver, pensava que era pai carinhoso, que amava demais as filhas. Assim, fechava os olhos. À medida que as filhas iam crescendo, ia ficando livre dos abusos sexuais do marido. Sabia por que, mas se recusava a enfrentar a realidade. Abusava das meninas desde bebês.
Um dia, quando uma delas estava com cinco anos, veio se queixar. Ficou furiosa, dizendo que aquilo não era coisa de inventar sobre o pai. A criança fugiu, chorando.
Ficou angustiada. Precisava dar um basta na situação. Mas tinha medo. Não suportava mais as surras que levava. Porém, a filhinha estava sofrendo. E foi a única que tivera coragem de se queixar. E o que fizera? Que tipo de mãe era? Resolveu. Mesmo com as ameaças, iria enfrentá-lo, para salvar as crianças.
Como resultado, foi parar, mais uma vez, no hospital. Assim, não se atrevia mais a abrir a boca.
Um dia, chegou embriagado. Sob ameaça de uma faca, reuniu as filhas no quarto, junto com a mulher. Foi usando uma por uma, na frente das demais. Fechara a porta do quarto e a janela. Os gritos e as choradeiras ficavam abafados. Cada vez que a mulher tentava intervir, ameaçava matá-la e às meninas. Por último, pegou a filha de cinco meses, que brincava no berço, com as perninhas roliças agitando no ar. A criança morreu na hora.
Só assim, o caso foi parar na polícia, resultando no júri.
O pensamento voltou-se para a infância, para o tranquilo lar, no alto da colina, de onde podia contemplar a lagoa.
Voltou a lembrar-se do pai. Era homem tímido, falava mansamente, ficava envergonhado quando era apresentado para alguém, baixando os olhos, como a pedir desculpa.
Mãos grosseiras, cheias de calos, obtidos no manejo do cabo da enxada. Andava descalço, pisando firme no solo que dava o sustento aos filhos. Dava-lhes segurança, amor e carinho. Amparava-os. Olhos verdes, corpo grande, parecia uma criança, quando sentava no chão, no terreiro da casa, para brincar com os filhos, com brinquedos que preparava com os sabugos de milho.
— Amoque estás distraída hoje, dizia, tirando-a dos devaneios de criança sonhadora.
Voltou-se para o interior do gabinete. Parecia que a voz do pai ainda a acalentava, fazia-a voltar à realidade, ainda hoje, decorridos tantos anos.
— Amoque esqueci um pouco destas pilhas de processos que me esperam — murmurou.
O pouco que os pensamentos vagaram pela terra natal, pelo lar, fora o suficiente para restaurar-lhe as energias, necessárias para dar-lhe o alento que precisava.
Abriu o primeiro processo.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
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