Naquele dia, estava especialmente feliz. Se me perguntassem, não saberia dizer o motivo. Mas era uma alegria gostosa. Andava pela rua com sorriso. Quando alguém me olhava, devia achar interessante, uma pessoa andar sorrindo, solitária pelas ruas. Mas não me importava. Meus sentimentos estavam agradáveis. Uma paz interior tomava conta de mim.
Assim como o sol brilhando, meu sol interior também brilhava. Há muito que não conseguia estar assim: em paz. Algo explodia em felicidade dentro de mim.
Caminhando distraída, não vi o passado se aproximando. Fui surpreendida com a sua voz:
— Por favor! Desculpe-me, mas a senhora me lembra uma pessoa que conheci, há anos.
Senti um choque. O passado ali, grisalho e interrogativo. Bem na minha frente. Levei tantos anos para esquecer, para apagá-lo da minha vida. E ele ali. Vivo e gritante, na imagem de um homem bonito, impecavelmente trajado. Respondi apressadamente:
— O senhor está enganado. Tenho certeza de que jamais o vi.
Falei e fui me afastando rapidamente. Nem olhei para trás para ver o rumo que tomava. Meu corpo tremia. O sol que brilhava no meu interior, foi coberto por grossas nuvens. A tristeza retirou o sorriso dos meus lábios. Caminhava como uma autônoma. Quando me dei conta, tinha errado o caminho. Entrei numa casa de chá.
— A senhora está se sentindo bem? — perguntou-me a garçonete.
Levei um tempo para responder. Parecia que não era comigo. Não via ninguém. Nada existia, só a dor batendo à porta. E eu que pensei que ela havia saído para sempre da minha vida. Bastou um simples encontro para desmoronar o que havia construído para enterrar as lembranças. A garçonete voltou a falar:
— Desculpe-me. Mas posso ser-lhe útil em alguma coisa?
Olhei para ela. Pelo menos, agora já a estava vendo e ouvindo.
— Ah! Sim. Por favor, sirva-me um chá.
Enquanto sorvia o chá quente, que parecia queimar-me, imagens foram desfilando.
— Mãe, mãe, estou apaixonada. Ele é lindo! Disse que quer casar comigo.
Mamãe olhou-me com espanto. Não sabia o que dizer e o que fazer, segurando-se para não gargalhar. Controlando-se, disse:
— Querida, senta-te aqui no meu colo. Conta direitinho isto. Como é que iniciou esse namoro?
— Mãe, ele é lindo! Foi hoje que nós começamos a namorar.
— É mesmo?! E ele já te pediu em casamento? Não estão muito rápidos?
— Não, mãe. Nós não vamos casar já. Tenho que crescer mais um pouquinho. Mas ele já é bem grande. Acho que tem oito anos.
— Tudo isto? Não é muito mais velhos do que tu? Por que não namoras alguém da tua turma?
— Ah, mãe, na minha turma não tem ninguém bonito.
— De qualquer modo, sinto que deves ir com calma. Não partir já para o casamento. Vocês ainda têm de estudar muito.
E estudamos, estudamos. Até terminar o ensino médio, ficamos no mesmo colégio.
Todos nos conheciam e sabiam do nosso namoro. Quando realizei a festa dos meus quinze anos, foi oficializado. Gostavam de Reinaldo. Era como um membro da nossa família. Como era filha única, meus pais viam nele um segundo filho. Tratavam-no com o carinho.
— Amábile, meus pais resolveram mudar para outra cidade, porque papai foi transferido.
— Querido, e nós, como é que ficamos?
— Nós? Nada vai mudar. Apenas não nos veremos todos os dias, como até aqui.
— Apenas? Dizes, apenas? E isto não te incomoda?
— Claro, amor, vou sentir saudade. Mas prometo que virei aos fins-de-semana.
Foi uma nova fase na nossa vida. Reinaldo, assim, tão distante. Eu sentia saudade. Já estava acostumada com a presença dele; fazia parte da minha vida. Amava-o tanto; sofria com sua ausência.
Reinaldo queria terminar a faculdade para depois casar. Nossos pais também pensavam assim, pois precisavam de mais tempo para construírem e organizarem o nosso futuro lar.
Quando Reinaldo morava perto, era como se já fôssemos casados, pois estávamos sempre juntos. Mas com a mudança, comecei a pensar em apressarmos o casamento. Propus:
— Querido, será que não poderíamos antecipar o casamento?
— O que aconteceu? Estás grávida?!
Soltei gargalhadas por ver a cara de espanto que fazia.
— Não. Não é o caso. É que fico aqui sozinha. Sinto a tua falta. Quero ficar perto de ti.
— Meu amor! Querida! Também sinto tua ausência. Mas meu amor aumenta ainda mais quando estou distante de ti. — disse-me tomando-me em seus braços.
Ele era minha vida. Meu único amor. Passei os anos com um único amor: Reinaldo. Não me podia imaginar sem ele. Era meu mundo, meu tudo.
Comecei a sofrer ainda mais, porque meu noivo andava ocupado com a faculdade, com os estudos e com os estágios; por vezes não vindo à minha casa. Meus pais não gostavam que eu fosse visitá-lo sozinha e nem sempre podiam me acompanhar.
Assim, fiquei fins-de-semana sem vê-lo. Sofria tanto. Quando vinha, voltava a insistir:
— Quando é que vamos nos casar?
Então, cobria-me de beijos, fazendo os mesmos carinhos que me deixavam feliz.
Reinaldo terminou os estudos. Compareci à formatura, juntamente com meus pais. Foi uma festa bonita.
Como nada mais impedisse nosso casamento, no mesmo dia da formatura foi marcada a data.
Tudo foi preparado para o grande dia. Queria que fossem momentos inesquecíveis.
Meus pais procuraram satisfazer o menor dos meus desejos. Por isto, a Igreja Matriz estava engalanada para a grande cerimônia. A sociedade local convidada, pois papai era político conhecido, além de ser um dos mais bem sucedidos empresários da cidade.
Meu vestido era uma obra de arte, confeccionado por costureiro francês. Sentia-me uma princesa dos contos de fadas, quando, em passos cadenciados, sob o som da marcha nupcial, cantada por famoso cantor lírico, entrava na igreja, nos braços do meu pai.
A igreja lotada. A televisão transmitindo.
Papai passou-me para os braços de Reinaldo, dizendo:
— Este é o meu tesouro. Por favor, faça-a feliz.
Reinaldo sorriu, sem dizer nada.
Postamo-nos na frente do altar. O padre iniciou a cerimônia. Havia silêncio geral. Eu emocionada. Lembrava do dia em que conheci Reinaldo e por ele me apaixonei com a força dos meus quatro anos. Agora, nossas vidas iriam se unir para sempre, com as bênçãos de amigos, de pais e de Deus.
— Meus amigos! Se houver algo que impeça este casamento, falem agora...
Olhei para o padre. Ele olhava fixamente para o corredor da igreja. Seus olhos demonstravam surpresa. Suspense. Eu não compreendia o que estava acontecendo. Por que o padre não continuava? Claro que ninguém iria impedir o nosso casamento. Então, por que insistia em esperar.
— Padre, ele já é casado. Eu sou a sua esposa.
A voz era um sussurro. Mal se ouvia. Chegou próximo do padre. Em seus braços, trazia uma criança.
— Este é nosso filho e estou grávida. Sinto muito. Não queria interromper o casamento. Mas não tenho outra saída.
Olhou em meus olhos:
— Perdoa-me!
Saí em desabalada carreira, vem ver ou ouvir qualquer coisa.
Somente dois meses depois, acordei. Olhei ao redor. Estava em um hospital. Não sabia quem era, onde estava, se tinha um nome ou uma família.
Mamãe passou as mãos sobre meus cabelos. Lágrimas desciam de seus olhos. Mas eu não sabia quem era e o que significavam as lágrimas e o carinho.
— Bem vinda, querida! Estava te esperando. Dormistes um sono profundo.
Fiquei olhando-a. Nada tinha para dizer ou perguntar. Tudo era um branco na minha vida. Não sabia nem se podia falar. Olhava para a senhora, sem qualquer sentimento.
Minha mãe chamou o médico. Falaram sem parar. Diziam só coisas que eu não entendia. Parece que a minha presença ali os deixava feliz.
Foram chegando outras pessoas. Tratavam-me com carinho, com palavras suaves, demonstrando amor.
Quando papai me viu, não se conteve. Soluços sacudiam seu corpo. Mamãe saiu do quarto, para não o encabular, naquele momento de fragilidade.
Mas eu continuava sem falar, sem entender nada, sem conhecer ninguém. Até fiquei emocionada de ver o homem chorando e molhando meu rosto com beijos.
Passei tempo na situação. Aos poucos, comecei a falar e a reconhecer as pessoas.
Saí do hospital. Mas, em casa, era acompanhada por uma enfermeira, que tentava me reeducar, ensinando-me as coisas mais simples, como se eu fosse um bebê. Foram anos de re-aprendizado.
Minha vida ia sendo resgatada. Lembranças foram voltando, com cuidado. Ia tomando consciência de mim, da minha vida. Mas não falavam em Reinaldo e não me lembrava de nada. Era como se nunca tivesse existido.
Um dia, quando já me sentia forte, fiz com que mamãe contasse o que acontecera. Relutou. Mas, após ouvir a opinião do médico, foi-me reavivando as lembranças. Aconteceu como um clic. O sofrimento foi intenso. Os médicos temeram por uma nova crise. Mas não ocorreu. A dor dilacerava meu coração, mas reagia.
De qualquer modo, a jovem sonhadora que era havia morrido na igreja. O que restava era um farrapo de gente.
Fui vivendo assim. Ou melhor, nem vivia. Apenas vegetava. Meus pais faziam de tudo para a minha recuperação. Célebres especialistas foram consultados. Mas quem pode recuperar um coração dilacerado?
Tornara-me pessoa inútil, uma morta-viva.
Somente o tempo foi aplacando a dor. Fui recuperando os espaços perdidos. Jamais vi Reinaldo ou tive notícia. Todos tinham o cuidado de não tocar no seu nome, nem dizer palavra que pudesse lembrá-lo.
Deixando a dor sedimentada no fundo, como se não existisse, passei a viver uma vida normal. Normal — é preciso que diga — para as condições de vida que passei a levar. Nada tinha mais brilho. Não me empolgava. Não tive outro namorado. Não trabalhei. Não fiz nada.
Somente anos depois, nesta existência sem graça, fui saindo da indiferença, buscando relacionar-me, fazer amizades, ser útil.
Busquei na espiritualidade a força necessária. Só então, compreendi o sentido real da existência. Assim, fui elaborando novos conceitos, amando o que tinha, mesmo que do meu jeito.
Hoje, sentia-me especialmente feliz, de sentimentos renovados, pois tinha encontrado um novo caminho de amor e bondade numa pessoa especial que surgiu na minha vida.
Por isto, caminhava pela rua, feliz, num sentimento que me era inexplicável, quando deparei no Reinaldo.
Terminei o meu chá. A realidade me aguardava. O passado estava morto. Morto e bem enterrado. Reinaldo, só agora compreendo, foi utilizado para mudar o rumo da vida para uma existência cheia de fé e amor, de gratidão por existir.
Se o choque de tê-lo encontrado desorganizou-me por instantes, servia para meu despertar, pois constatei que o sentimento de ódio que estava nutrindo se apagara. Com certeza, fora utilizado como um instrumento para a minha libertação.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
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