sábado, 3 de julho de 2010

FORA DO CASULO

Hoje, sábado, decidi ficar em casa, sem colocar os pés fora do portão, sem tirar o pijama. Coisa boa. Há quanto tempo não me dava a este luxo. Choveu a noite toda e continuou pelo dia. Mais um motivo para me enfurnar. Mas não parei. Tinha tanta coisa. Fiz almoço, cuidei das meninas, Li e-mails, respondi, encaminhei, fiz pesquisa sobre convocatórias de arte postal. Deitei e tirei uma soneca, enquanto as meninas viam um desenho. Li algumas páginas de um romance.

Ia neste ritmo quando meu filho ligou e pediu para levar as meninas a um aniversário. Era somente levar. Depois ele as traria. Disse sim. Tudo bem. Precisei tirar o pijama, mas tudo bem. A chuva havia passado, não baixara a temperatura, o dia lindo.

Costumo, logo ao levantar, chegar à porta dos fundos, abrir os braços e dizer: bom dia, dia! Faço isto com sol, chuva, calor, frio, vento. O dia sempre está lindo. É assim que meu coração sente. Acostumei-me a serená-lo. É tão bom. Pouca coisa me atucana, tira-me da casinha. Penso que o pássaro azul da felicidade anda solto. Que assim também as pessoas sentem. Claro que não sou cega, não deixo de perceber as amarguras do mundo, o lado triste, os conflitos, os crimes e tantas outras coisas.

Voltando ao pedido, embelezei as meninas e fomos. Era perto, nem precisaria entrar na festa. Por isto, estacionei no portão, atrás de um carro, retirei as meninas do veículo e fui me aproximando da entrada. Um homem veio em minha direção. Achei gentil vir receber os convidados. Sorrindo, continuei. Foi aí que aconteceu. O sujeito vinha com a chave do carro na mão e foi me agredindo, verbalmente, embora, pelas palavras e pela proximidade, tenha temido que partisse para agressão física, tal a fúria. Que tirasse o carro dali, pois estava trancando o dele, que tiraria o dele para que eu pudesse ocupar a vaga.

No início, como já disse, pensei que se tratava de uma pessoa gentil, fui dizendo, mantendo o sorriso: calma, já estou saindo, calma. E ele com a chave em riste, insistia, até, finalmente, entender que não iria atrapalhá-lo. Ainda acrescentei: calma, jamais faria uma coisa desta com o senhor.

E saí.

Fiquei decepcionada. Primeiro por que era jovem e eu de cabelos brancos; segundo por que era homem e eu mulher. Pensei que ainda existisse cavalheirismo. Depois, ponderei que não cumprimentou o dia, quando acordou; que deve ter reclamado muito por ter chovido logo no dia da festa do neto (nem sei se era parente do aniversariante); que já era próximo fim do mês e seu salário, do mês anterior, devia estar no fim; que teria brigado com a mulher, por insistir em colocar a leg tão apertada, depois de ter pintado o cabelo num tom avermelhado; ou, quem sabe, o Viagra não funcionou.

Enfim...

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